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Archive for the ‘semi-automático’ Category

[MS ColdPlot]

Sex, 11 Set 2009, 253 Andre Deixe um comentário

Está na blogosfera. A Microsoft lançou ontem a fundação CodePlex com o intuito de

enable the exchange of code and understanding among software companies and open source communities.

Somando isto ao fato de que recentemente a M$ contribuiu pela primeira vez com linhas de código para o kernel do Linux, está abrindo mão de algumas patentes em favor do software livre e vem apoiando a adoção de um formato livre para documentos de escritório, torna-se nítido que estamos entrando em uma nova fase. Porém qual nova fase?

Conheça a História e a História vos dirá. A nova fase, não é a da sagração do software livre, mas a da tentativa, espero que sem sucesso, de corrosão do movimento.

Quando o movimento do software livre se iniciou, ou melhor, quando o GNU/Linux começou a sair do nicho dos über hackers e alcançar os meros geeks do dia-a-dia, a Microsoft saiu em claro ataque ao movimento, taxando-o até mesmo de câncer. Durante os anos que se seguiram, embora o software livre não apresentasse ameaça real ao monopólio global da empresa no mercado de softwares, a companhia de Bill Gates manteve sempre uma postura de repúdio à ideologia livre do movimento, espalhando FUD pela internet e mídia especializada, usando suas patentes para atacar os desenvolvedores de código livre, tentando abertamente sufocar o movimento.

O que, então, teria acontecido para que de inimiga do código livre a empresa, de repente, passasse a “apoiar” com o movimento?

O que aconteceu foi que a estratégia inicial se mostrou ineficaz e a companhia foi forçada a uma mudança de estratégia. Não obstante os constantes ataques ao movimento, o software livre tem se mostrado resistente e vem crescendo, lenta, porém constantemente, e começa a sair dos núcleos geeks e alcançar os meros usuários, começa a chamar a atenção de um público maior. Basta ver as estatísticas de um Firefox, de um OpenOffice, das distros GNU/Linux, principalmente após o nascimento do Ubuntu e a aparição dos Netbooks, bem como o crescente apoio governamental às iniciativas open source para perceber o crescimento do software livre e a ineficácia do enfrentamento ostensivo até então adotado pela Microsoft. Não apenas, mas também é relevante o fato de que outras empresas de peso têm contribuído ativamente para o desenvolvimento do software livre, de forma que nem mesmo a M$ tem poder o bastante para estrangular o movimento.

Como diz o ditado popular, “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Porém, não exatamente.

Sendo incapaz de extinguir o software livre ou manter o jogo nos moldes em que se desenvolveu nos anos 90, a empresa agora dá sinais de começa a adotar uma tática comum quando há uma ameaça de mudança de paradigma: aliar-se para controlar ou, ao menos, conter os limites da mudança. A estratégia não é nova. Em diversos momentos da história, quando uma elite se sentiu ameaçada por um movimento popular, que foi incapaz de reprimir, assumiu uma postura de liderança do movimento, para, do interior, minar seus efeitos. Aconteceu na revolução francesa, com a burguesia liderando as massas para controlá-las e garantir que caísse o regime político, sem prejuízo da estrutura de dominação econômica. Aconteceu também no Brasil, onde as transições colônia-império, império-república e ditadura-república contaram sempre com a direção de uma elite, antes contrária ao regime que agora apóia.

Não é que a Microsoft tenha mudado. Não é que agora tenha percebido que seu modelo de apropriação do conhecimento era prejudicial à sociedade. Não é que tenha se convencido da necessidade de liberdade em software. É apenas que ela têm percebido que a mudança pode ocorrer mesmo com seus esforços em sentido contrário. Então, se for para acontecer, que aconteça com ela no comando, que aconteça segundo as suas diretrizes.

Não, não é paranóia, não, não é teoria da conspiração. Se a M$ tivesse realmente interesse em contribuir com a comunidade, o passo mais óbvio seria fazer o que todos os que querem contribuir fazem: dão suporte, financeiro, técnico ou ideológico a uma comunidade já organizada. Quisesse a M$ colaborar com a comunidade, o passo mais óbvio seria que tivesse alocado o capital na Free Software Foundation, na Open Source Alliance, no Gnome, no Debian, na Linux Foundation, etc. Tivesse em mente uma vontade de mudança, adotaria para seus softwares as licenças GNU, BSD ou outra aprovada pela OSI ou pela FSF, não criaria seu próprio rol de “licenças livres M$”, lançando apenas alguns códigos com estas licenças e mantendo fechados seus softwares e exigindo a anuência dos usuários com seus EULAs. Quisesse favorecer o software livre, teria contribuído com o Wine para que os softwares Windows rodassem facilmente nos kernels Linux, ao invés de lançar linhas de código no kernel para garantir que o Windows funcione bem quando virtualizado nele. Fosse favorável à liberdade, contribuiria para a adoção do ODF e sua interoperabilidade com o seu pacote Office, ao invés de lançar seu próprio formato livre e boicotar as funções dos arquivos criados pelo OpenOffice quando transpostos para o MSOffice.

O próprio FAQ do site deixa essa visão clara:

We wanted a foundation that addresses a full spectrum of software projects, and does so with the licensing and intellectual property needs of commercial software companies in mind.

The Foundation Charter will spell out the types of projects that the Foundation works with, and the types of relationships projects may have to the foundation.

We know that commercial software developers are under-represented on open source projects. We know that commercial software companies face very specific challenges in determining how to engage with open source communities. We know that there are misunderstandings on both sides. Our aim is to advance the IT industry for both commercial software companies and open source communities by helping to meet these challenges.

Meeting these challenges is a collaborative process. We want your participation.

Ou seja, eles querem formar uma organização que seja responsável pela mais completa gama de projetos livres, de acordo com os interesses das empresas de softwares, na qual eles escolherão quais projetos merecem atenção e, a cereja do bolo, eles querem a nossa participação. A fundação mal começou e já pretende ser o centro. Não são eles que estão aderindo ao movimento que já existe, somos nós que devemos aderir à liderança que eles estão propondo.

A própria linguagem do site deixa clara a intenção de perverter o movimento. Não há uma menção sequer à palavra “free“, tratando-se sempre de “open source”, o que se afasta mais da ideologia e de sua incompatibilidade do tipo de mudança que eles estão propondo. Falam ainda de “intellectual property“, uma expressão duramente atacada por R. Stallman e pela FSF, que foram os primeiros fautores de uma mudança. Há também uma contraposição muito nítida entre a “comunidade” e as empresas, muito diferente da aproximação de companhias como a RedHat e a Canonical, que de fato vêm mostrando como é possível fazer negócio com software livre. Software Livre, não aberto.

Aliás, ao contrário de outras organizações como o Debian que têm propostas muito claras em um estatuto social bem definido, no CodePlex:

The most important document, the Codeplex Foundation Charter, doesn’t even exist in draft form yet.

Como dito, a idéia de aderir para controlar não é nova. Apropriações indevidas como esta já foram feitas outras vezes na história. Pense no nazismo. O partido de Hitler era o do Nationalsozialismus, ou seja, do Socialismo Nacional. Da mesma forma, o partido da ditadura no Brasil era o PSD, Partido Democrático Social e o Partido Liberal do império era escravista e conservador. A Microsoft quer colaborar com o software livre tanto quanto os nazistas queriam colaborar com o socialismo, os militares com a democracia e os escravocratas com o liberalismo.

Inicia-se agora uma etapa muito mais delicada que a anterior. Nesta nova fase a comunidade tem que se preocupar não apenas em sobreviver, mas em não deixar com que seus opositores, sob a falácia das boas intenções, tomem as rédeas do seu movimento de mudança estrutural para torná-lo mera perfumaria.

ADENDO: RMS pronunciou-se oficialmente sobre o lançamento do Codeplex, o que gerou uma curiosa réplica de Miguel de Icaza. Interessante perceber que Icaza limita-se a atacar Stallman taxando-o de maniqueísta, sem, em momento algum, confrontar suas premissas éticas e suas assertivas a respeito do compromentimento estratégico (leia-se, enfraquecimento) que a iniciativa pode gerar. O Groklaw também publicou uma matéria sobre o assunto.

[marketing, o mal necessário]

Seg, 29 Jun 2009, 179 Andre Deixe um comentário

Quem usa o Linux sabe que o sistema está mais do que pronto para disputar o mercado de desktops com os sistemas proprietários. Seja com o Gnome ou com o KDE, com o Ubuntu, Fedora, OpenSUSE ou Debian, há muito já se foi aquele tempo em que o Linux era um sistema para quem tinha tempo, disposição e conhecimento técnico para usá-lo. Qual seria, então, o motivo para o lento progresso na adoção do software livre?

Diversos obstáculos podem ser apontados, como, por exemplo, o custo da migração, o preconceito, a impossibilidade de rodar alguns determinados softwares proprietários, o hábito, etc. Neste post quero focar em apenas um deles, que, cada vez mais, parece-me de importância central: o marketing.

A proposta do software livre contém elementos de contra-cultura e seus proponentes são, na maior parte, participantes de uma subcultura que pouco tem em comum com a cultura mais geral que permeia a sociedade capitalista globalizada. Frise-se: a comunidade do software livre não possui os mesmos valores (ao menos não em mesma ordem de prioridade) que o restante da sociedade. Isto implica em um problema fundamental na comunicação: como convencer um leigo em tecnologia ou com pouca preocupação em manter um posicionamento ético e político de que as liberdades de rodar, estudar, compartilhar e modificar softwares são de grande relevância? Mais do que isso, como fazer com que o movimento tenha alguma visibilidade em um mundo tão acostumado à informação mastigada, picotada, de no máximo 140 caracteres?

Considerando que somos nós que queremos subvertê-los à nossa ética, não contrário, parece evidente ser nossa a incumbência de buscar construir um diálogo em sua língua. Com isso quero implicar mais do que apenas mastigar termos técnicos como particionamento e montagem de hd, boot loader, sistema de arquivos, desktop manager e etc. Com isso quero implicar que devemos gerar empatia, devemos nos apresentar como semelhantes, devemos vestir uma máscara que nos torne agradáveis, familiares.

Tudo isso começa pelos nomes. GNU/Linux, por exemplo. Os mais conscientes da história do movimento sabem que Linux, a despeito de sua importância central no sistema, é apenas o nome do kernel, um os muitos softwares que fazem parte de um sistema operacional. Assim, chamá-lo de Linux é negar crédito a todo o restante, mais do que isto, é negar crédito àqueles que começaram a divulgar a necessidade de liberdade em matéria de software. GNU/Linux é sem dúvida uma nomenclatura muito mais adequada à realidade do sistema.

Isto, contudo, não implica que este deve ser o nome a ser adotado em quaisquer situações. Ao conversar com alguém que nunca ouviu falar de software livre, preocupar-se em dar ao sistema o seu nome correto, GNU/Linux, não agrega qualquer valor, sendo ainda uma péssima forma de apresentá-lo. Para o leigo GNU/Linux não quer dizer nada. Ele não sabe o que é Linux, não sabe o que é GNU, nunca ouviu falar de Richard Stallman, nem de Linus Torvalds, nem de GPL, e a palavra kernel não possui significado algum.

A dimensão disto talvez nos escape. Pense na sua tia ou no seu primo macho-alpha desmiolado. O que você acha que tem mais apelo, Mac ou GNU/Linux? O que é mais fácil de memorizar, XP ou GNewSense? Tente então lhes explicar que GNU quer dizer GNU’s not UNIX, que é um acrônimo recursivo. Explique o que é um acrônimo recursivo e que eles foram muito usados pelos hackers nos anos 70. Aí tente explicar o que é UNIX, ou você realmente acha que Bell Laboratories, MIT, C e UNIX são parte da cultura geral e estão de mãos dadas com a Madonna? Tente então explicar que, na verdade, não existe um sistema GNU/Linux, e logo que não é possível comprá-lo, de forma que eles devem procurar por distribuições GNU/Linux, mas que existem infinitas delas, aconselhando-os a começar com algo como o OpenSuSE e explicando porque algumas letras estão em maiúsculas no meio do nome. Explique então o que é uma distribuição.

Quando tive meu primeiro contato com o movimento eu me apaixonei e todos estes detalhes me encantavam, como sei que encantaram e ainda encantarão muitos outros. Mas devemos estar cientes de que somos e sempre seremos minoria.

Toda essa miríade de informações e nomes simplesmente não tem, nem nunca terá qualquer apelo para a grossa maior parte dos usuários. Pior do que isso, essa avalancha de informações só fará com que estes usuários encarem o sistema como algo extremamente complexo, “coisa de nerd”, desenvolvendo um receio, um preconceito contra ele.

Em minha opinião esta nossa postura denota somente falta de humildade, falta de disposição para entender o outro, falta de estratégia. Nós queremos convencer a sociedade da superioridade do modelo livre, mas de tão convictos que somos desta superioridade, queremos que a sociedade se curve aos nossos valores e queremos isto desde o primeiro contato. Somos, então, constantemente derrotados por aqueles que, ao invés de tentar mudar os valores da sociedade, manipulam as disposições e desejos humanos mais primitivos em seu favor. Depois de uma hora discorrendo sobre a importância ética da adoção do software livre, chore ao ver o seu primo comprar um iPhone pelo simples fato de que ele é “descolado”.

Branding, marketing.

Se queremos chamar a atenção temos que descer dos tamancos e jogar cartas com malícia, devemos nos tornar desejáveis, devemos parecer iguais; ao invés de confrontar devemos cooptar. Esta é a razão pela qual eu, apesar de ser um usuário Debian convicto, instalo Ubuntu quando me pedem. Instalo Ubuntu e não explico que o nome tem um significado em uma língua africana. Instalo Ubuntu e não explico que é software livre. Instalo Ubuntu e não explico que é uma distro Linux. Ubuntu é uma palavra simples, marketável. O Ubuntu tem um site bonito e trata os usuários como se fossem crianças. Instalo o Ubuntu, ajusto o Compiz e digo apenas: “não é legal?” É somente isso que vai interessar a maior parte dos usuários de desktop. Shinny.

Isto não quer dizer que nunca mencionarei a questão da liberdade. Quer dizer apenas que aquele não é o momento. A maior parte das pessoas é avessa a migrar para um novo sistema. Veja o caso do Vista. Muita gente ainda hoje ainda usa o XP e muita gente vai continuar usando. Para que o usuário decida reinstalar seu sistema operacional ele precisa sentir a necessidade de fazê-lo e ainda assim será um momento de insegurança e dúvida. O que ele precisa neste momento é sentir que o sistema que você está propondo é fácil de usar e que é mais legal do que o que ele vem usando. É triste, mas é uma realidade que não vai mudar tão cedo, nem será diferente porque assim desejamos.

Depois que este usuário já tiver migrado e já se sentir confortável com o novo sistema aí então é o momento da aula de história. Nesse ponto, a aula de história, ainda que entedie o aluno, não vai fazer ele reinstalar o Windows, porque ele já viu o suficiente para saber que o sistema que ele está usando é melhor, mais rápido, mais seguro, não trava, é mais bonito e faz tudo o que ele precisa. Nesse momento, a aula de ética, se não fizer com que ele se apaixone, ao menos não lhe trará um preconceito.

[do conflito de gerações]

Seg, 29 Jun 2009, 179 Andre Deixe um comentário

ou do embate entre ídolos na psiquê de um geek

Minha intenção era conseguir postar neste blog comentários sobre cada um dos palestrantes do FISL 10, coisa que os amiguinhos do twitter fazem com a facilidade que a superficialidade da ferramenta permite. Além disso, devo pontuar que fui forçado à difícil escolha entre transmitir uma perspectiva objetiva, nos limites do factível, ou perder-me no emaranhado caótico da subjetividade. Embora a credibilidade normalmente seja associada à primeira, fato é que será possível (se já não o é) assistir à íntegra dessas palestras em diversos sites de streamming e inúmeros blogs conterão resenhas mais neutras das palestras, de forma que minha escolha, conforme indica o subtítulo, fica com a segunda. Ainda, uma vez que tal posicionamento guarda maior coerência com o que será discutido adiante, o que é uma opção pareceu-me um dever.

A despeito da morte de Michael Jackson (que descobri por telefone) e da chegada do Luís Inácio ao evento, o foco de minhas atenções no último dia foi disputado por apenas duas pessoas: Richard Stallman e Peter Sunde. Ambos dispensam apresentações para qualquer nerd politizado e são provavelmente os titãs do evento. O primeiro, idealizador das quatro liberdades que caracterizam o software livre, figura quase mítica tanto no aspecto físico quanto no discurso, é a referência mais básica de qualquer um que queira começar a pensar de forma crítica o desenvolvimento e compartilhamento do saber (mais do que apenas softwares) na rede. O segundo, um pouco mais polêmico e do gosto da mídia atual, deve sua fama a algumas ações ousadas, muitos diriam rudes, outros bem humoradas, na rede.

Sabendo que a boa fama de um está atrelada ao discurso ético, mais do que ao software – área em que acabou um pouco ofuscado por Linus Torvalds, não obstante a importância do GDB e do EMACS – e que a do outro vincula-se a uma certa petulância nas palavras e atos, vale conferir as respostas às notificações extrajudiciais encaminhadas ao PirateBay – cujo próprio nome já indica a ousadia do grupo -, a expectativa era de uma palestra ideologicamente coesa, marcante pela profundidade, pelo primeiro e meramente divertida pelo segundo. Seria um disparate dizer que ocorreu o exato oposto, já que Stallman, de fato possui uma base histórica e uma coerência discursiva louváveis e embora não seja desprovido de humor, peca pela seriedade. Não sendo uma exata inversão, pode-se dizer que a surpresa veio justamente pela coerência discursiva onde não era esperada e pela falta de visão daquele que é conhecido por ser um visionário.

Peter Sunde não se apresenta de forma ordenada, nem se dá ao trabalho de expor de maneira coerente um discurso ideológico. Sua palestra não é focada no “esclarecimento” do público, nem na cooptação de aliados a uma causa. Com um otimismo difícil de se manter frente aos resultados do “spectrial”, Sunde simplesmente parte do pressuposto de que a causa está decidida e que nós vencemos, falta apenas o decurso do tempo para que a sociedade perceba isso de forma ampla. Nem mesmo a notícia de que o julgamento da suspeição do juiz de primeiro grau no spectrial resultou improcedente, justamente porque o juiz da suspeição era ele também membro de uma organização de defesa dos direitos dos carteis da mídia de massa, pareceu abalar o ânimo do sueco.

Em um lento desenrolar de fatos, slides, pensamentos e piadas, de repente surge a linha mestra de todas as ações: kopimi. Diferente de Stallman e Lessig, Sunde é um extremista. A melhor forma de licença para ele é a não licença, a melhor forma de direito autoral é o não-direito autoral. As cópias e a manipulação do conhecimento devem ser permitidas sem quaisquer restrições, para qualquer fim, pelo simples fato de que a apropriação do conhecimento é uma idéia absurda. Radical como poucos, ele simplesmente não reconhece quaisquer privilégios ou monopólios sobre o saber, ponto. O discurso, apesar de pouco estruturado e ordenado, é absolutamente coerente com as suas práticas.

A crítica talvez seja no sentido de que aqueles que não o conhecem perderiam a dimensão daquilo que ele está falando, o que, aliás, não é sem consciência, já que assume não ser a pessoa mais indicada para prestar “esclarecimentos ao público leigo”, sendo somente capaz de dialogar com geeks que entendem do que ele está falando. Durante a coletiva de imprensa – na qual me infiltrei e pude até fazer três perguntitas -, todavia, ficou claro que alguns jornalistas o enxergam, e transmitirão isso ao público, como um delinqüente virtual que não respeita os direitos de terceiros na rede.

Richard Stallman, por outro lado, vem com a experiência dos mais de 25 anos na defesa das liberdades da comunidade, das infinitas palestras pelo mundo que já há anos se tornaram livro. Não obstante, deixou-me uma má impressão pelo conservadorismo e limitação de suas idéias. Diferente de Sunde, Stallman defende alguma forma de copyright e acredita no discurso das trocas e incentivos (um pouco de nossa liberdade, por um pouco da criatividade alheia), acha apenas que no atual momento há uma desproporção muito grande entre aquilo que cedemos e o que estamos recebendo. Para ele, estamos negociando liberdades que jamais poderiam ser cedidas na proporção em que vem ocorrendo. Em seu discurso, os direitos autorais cumpriam uma função com Guttenberg, a qual deve ser repensada com Turing e Bernstein.

Ao final da palestra, tentei ampliar a crítica e pensar a ausência de uma função legítima a um monopólio sobre o saber, qualquer que fosse a época ou tecnologia. Aventei, em forma de pergunta, a possibilidade de que os direitos autorais tenham sido um mero instrumento de controle de mercado, uma forma de garantir poder aos empresários que já possuíam escala, poder para impedir o acesso a novos competidores e poder para ditar o que seria publicado, como seria, a que preço e a quem (segundo critérios territoriais ou socioeconomicos) seria lícito ler tais e quais obras. A idéia, veja, não é sequer minha (se é que pode pertencer a alguém), mas de Peter Drahos. Todavia, ao ser indagado Stallman fugiu à discussão da idéia e limitou-se a um ataque pessoal. Disse que a hipótese era absurda e que eu estava apenas sendo tendencioso (biased) e pensando com ódio (hatred) por tais empresas, presumindo que tudo o que fazem é interessado e prejudicial.

Aí veio a decepção. Não pelo ataque, mas pelo que me pareceu falta de preparo. Parciais, passionais e interessados todos somos. De modo algum refuto as pechas que me foram atribuídas. Um ser humano jamais pode se livrar de sua subjetividade, dos efeitos que suas emoções e experiências sentimentais têm sobre suas conclusões racionais. Crer-se imparcial, sereno e desinteressado é apenas ignorar-se, não se conhecer e, conseqüentemente, ser incapaz de entender o outro. Em especial o ódio não deve ser ignorado. Freud fala que possuímos todos duas pulsões fundamentais, eros e tânathos, vida e morte, construção e destruição. Mais do que isto, nenhum de nós ou de nossos atos provém exclusivamente de uma destas pulsões, mas de um amálgama das duas em diferentes proporções. Crer-se muito Madre Tereza ou esperar, aos 56 anos, que os outros assim o sejam demonstra apenas despreparo.

Tentei formular uma hipótese sobre o porquê da rejeição primária de minha idéia, sem qualquer tentativa de discussão. Três generalizações babacas me ocorreram. 1. Pode ter havido o que chamam de conflito de gerações, justificando-se a disparidade pelo conservadorismo que vem com a idade em confronto com a impulsividade que caracteriza a juventude. 2. Pode ter havido um conflito de culturas, sendo muito difícil para um estadunidense uma crítica tão radical de sua própria cultura, uma crítica menos focada no utilitarismo. 3. Pode ter havido um conflito entre uma mente intrinsecamente voltada para as exatas, com as divagações sempre incertas de uma mente das humanas.

A primeira babaquice logo refutei com Foucault, ídolo dos ídolos, que, aliás, teve um embate interessantíssimo com um estadunidense que ficou confuso com suas idéias, o que reforça um pouco a segunda hipótese, a qual também se reforça com Nietzsche. Faltam-me exemplos para a terceira e me reservo o direito de não concluir por nenhuma das babaquices.

[idiotia coletiva]

Sex, 13 Fev 2009, 43 Andre Deixe um comentário

Desde que abri minha primeira conta corrente em um banco, venho acompanhando com alguma (cambiante) freqüência a bolsa de valores. No início, meu interesse pelo mercado restringia-se somente à remota possibilidade de que eu um dia conseguisse “aprender a investir” ou desenvolvesse alguma espécie de “intuição” que me permitisse criar fortuna em cima desse mágico mercado.

Nos últimos tempos, contudo, minha ótica sobre o mercado tem se alterado. Venho cada vez mais me maravilhando com as possibilidades de estudar o comportamento de massa através das oscilações no mercado.

A apresentação econômica do mercado a que somos normalmente expostos trata as oscilações de preços do papéis sob o prisma dos “pequenos” acontecimentos (ou fatos relevantes) quotidianos que afetam a desejabilidade de dada ação. Assim é que a descoberta da bacia de petróleo na camada pré-sal, a fusão de dois bancos, a colisão de dois aviões são meios capazes de fazer os preços de determinados papéis dispararem ou despencarem. Por conta disto, os investidores (no sentido mais amplo do termo) preocupam-se sempre com a qualidade das informações. Um bom investidor é aquele que compreende a mecânica do mercado, está sempre informado e sabe pescar, na avalancha de informações que é a sociedade atual, aquele dado mais relevante que será decisivo para a elevação ou queda nos preços. Sob este prisma, o titã dos investimentos é o insider trading.

Uma segunda ótica é a matemática. Alguns acreditam que os investimentos no mercado podem ser realizados com base em raciocínios meramente formais, sem atenção a quaisquer informações que não a variação própria das cotações. Note-se que esta forma de pensar na exclui a primeira pela simples razão de que não pretende explicar o que faz os preços se alterarem, mas partindo da premissa de que se alteram ao longo do tempo, supõem ser possível, pelo uso de instrumentos da matemática, calcular a probabilidade de haver elevação ou queda. A lógica é que, conhecendo as probabilidades, não se acertará sempre, mas se acertará um maior número de vezes do que se errará. Desta forma, ao longo do tempo a soma nos ganhos excederá em muito a soma das perdas. Em uma hipótese mítica, o filme Pi de Darren Aronofsky conta a história de um homem que procura – até os limites da sanidade – encontrar um número que serve de chave aos padrões da natureza, incluindo a própria oscilação da bolsa.

A terceira vertente (não sei bem se é apropriado chamar de vertente, já que nunca conheci quem abordasse o problema desta forma, mas também nunca fiz qualquer pesquisa sobre o assunto) seria a a da psicologia de grupo ou comportamento de massa. De certa maneira esta abordagem explica o porquê a análise matemática é válida ao mesmo tempo em que fornece um crivo para saber quais (ou talvez quando certas) informações são relevantes. Não apenas, mas ela torna coerentes alguns fenômenos limites que de certa maneira invalidam a análise econômica da informação.

Friedrich Hayek tornou-se mundialmente conhecido por seu artigo “The Use of Knowledge” no qual defende a importância econômica do livre mercado e o preço como forma de captar o conhecimento coletivo, que seria muito mais preciso ou adequado do que o conhecimento individualmente detido. Segundo sua ótica o conhecimento coletivo obtido através do preço seria de maior precisão mesmo quando comparado com a melhor informação individualmente detida. Em parte isto explica porque os indivíduos que tentam antecipar o mercado em geral perdem feio. Porém não explica Warren Buffett, não explica o Lehman Brothers, nem a Black Tuesday. Se a informação obtida no livre mercado através do preço é assim tão ótima, como é possível que o mercado só perceba uma crise quando ela já aconteceu, apesar de historicamente ser possível colher prenúncios da crise anos antes?

Bem, o comportamento de manada está aí para isso.

O mercado é feito de investidores, os quais são pessoas, que por sua vez são animais, e todas estas figuras se comportam como os búfalos do Lion King ou os hooligans. A sociedade ocidental contemporânea é alicerçada na fé em um homem racional. Segundo esta utopia, os agentes no mercado utilizam as informações que possuem como critérios para uma decisão econômica racional. S. Freud, e observe-se que seu maior opositor  G. Jung concordou com ele, já deu claros indícios de que o homem normal (ou normalizado) tem muito pouco de racional e guarda no seu íntimo uma grande semelhança com o neurótico, com o compulsivo, com a mulher histérica, com o masturbador e toda esta miríade taxinômica da psicologia. O mais irônico é que estas análises que não foram inventadas para explicar o mercado, mas para tratar dos de comportamento desviante, de fato o explicam melhor do que aquelas que o tomaram como objeto de estudo.

A atual crise econômica é um prato cheio para uma reflexão sobre o comportamento delirante das coletividades (o que não é senão o resultado exponencializado da soma das idiotias individuais) e um trampolim para um niilismo extremado sobre a capacidade humana de um comportamento ético e conseqüente apatia política no que pertine as relações de poder. Por que ocorrem bolhas especulativas? Por que as bolsas quebram? Por que se queimavam hereges na Idade Média? Por que o nazismo foi possível? Por que a escravidão aconteceu? Por que se tolera que Israel realize genocídios na faixa de gaza? Por que as pessoas pagam royalties e causam déficits milionários na balança comercial de seus países para usar um software ruim, que as priva do potencial de seus computadores se podem de graça adquirir um outro melhor sem os defeitos do primeiro?

Herd behaviour. Uma pessoa grita e a multidão entra em transe. Fofoca. Imitação. Insegurança. Os indivíduos temem o grupo então buscam copiar os demais. Se estão todos comprando, vou comprar também. Se estão todos vendendo vou vender também. Se todos acham  ridículo que dois homens tenham um relacionamento sexual, então vou achar ridículo também (quer seja por meio de piadinhas que escondem meu desejo de me comportar assim, quer seja assumindo meu desejo por meio de uma persona ridícula, com vozes, roupas, caras e jeitos destoantes).

Por que Warren Buffett é possível? (Além do fato de que quem possui dinheiro pode manipular as altas e baixas, bem como comprar informações privilegiadas). Existe não porque é possível manipular a loucura do grupo. Existe porque a manada não sabe, nem quer saber, para onde esta indo. A segurança da manada está na própria manada, ela confia no fato de que se a manada está indo para o norte é porque o norte é melhor e assim acelera o passo para ir para o norte. Ciclo vicioso. O mesmo se aplica à crise. Óh a crise, a crise, a crise. Quanto mais se fala, mais se fala. Quanto mais desespero, mais desespero. Quanto mais cortes, mais cortes. Quanto mais prejuízo, mais prejuízo. Até que um Visconde de Mauá apareça e diga: opa, perae, o mundo continua andando, as fábricas continuam com o mesmo potencial de produção, a terra anda dá frutos, os rios ainda dão água, esta não é a primeira, nem a última crise, vou comprar. E la vai a manada atrás, atrasada, igualmente desorientada, igualmente crédula em si mesma e igualmente fadada a uma nova crise.

Tudo tão novo, mas sempre tão igual a tudo o que sempre foi. Será que não há realmente nada de novo debaixo do sol? A massa do universo só pode de fato ser sempre a mesma, reagrupada, mas sempre a mesma…

[o fruto proibido]

Sáb, 17 Jan 2009, 16 Andre Deixe um comentário

Um dos maiores truísmos da história da humanidade é dizer que todas as coisas possuem concomitantemente vantagens e desvantagens (ou que elas não são dotadas de qualidades, mas que somos nós que inventamos e atribuímos discurso àquilo que é essencialmente vazio de significado). Esta idéia encontra-se por detrás de diversas ilustrações como o yin e o yang ou o fruto da árvore proibida. Não obstante, parece incontornável a propensão humana a ignorar a permanência e difusão desta simples, porém crucial ilustração.

A nossa dieta define o que somos. Aquilo que consumimos também nos transforma. Não existem atalhos, dádivas ou posse sem sacrifícios.

Também já se vê emperrada a tecla do consumismo. Sociedade do consumo. Direitos do consumidor. Os primeiros a criticar a frivolidade do consumismo que foi instaurado nas sociedades contemporâneas já não servem mais nem para ração de larva. Tudo indica, aliás, que quando nós com eles estivermos ceando ainda haverá aqueles que entoem o mesmo canto, com o mesmo gosto salgado na boca.

Ainda assim, digo-lhe outra vez: o fruto proibido tem um cheiro suave e um sabor adstringente.

Miyamoto Musashi, em seu livro Go Rin no Sho (ou Livro dos Cinco Anéis), ao tratar dos princípios que devem nortear o caminho do guerreiro, diz que é preciso “distinguir entre o ganho e a perda nas questões mundanas“. O modo como encaramos os objetos diz muito sobre quem somos, mas também revela a inafastável carência de sentido do objeto. Esta consciência, todavia, não necessariamente conduz à melancolia e inação. Pode também significar a liberdade para nos desviarmos da assimilação impensada dos valores regurgitados por outros.

Em nossa sociedade o principal discriminador entre pessoas não é mais a genitália que possuem, a melanina que lhes colore a pele, uma casta, clã ou família ao qual pertencem, mas aquilo que consomem. O que se come, bebe, veste, calça, ouve, freqüenta e usa, mais do que matar a fome, saciar a sede ou proteger do clima, confere uma relação de pertença, denota poder. Exibe-se o tamanho do falo pela maior ou menor raridade (ou novidade) do que se consome. E para que alguns poucos rasputins possam andar pelados é necessário que todos acreditem que existe algo chamado felicidade e que o único meio de conquistá-la é comprando-a. Somente assim todo o excedente produtivo da sociedade pode ser bem drenado para irrigar as veias das vergas supracitadas.

Sussurra-se (na verdade está mais para uma ladainha gritada, a TV que não pode ser desligada de Winston Smith): se você quer isto, basta consumir aquilo. E não se trata de uma simples inverdade, justamente pela natureza multifacetada ou oca de todas as coisas. De fato, consumindo aquilo se consegue um pouco disto, porém também se perde algo e aqui está o engodo. O fruto não é proibido, porém o atalho para alcançá-lo oculta uma prisão. Consegue-se o que se queria, mas, lembre-se não existem dádivas, e o pedágio pelo uso do atalho é caríssimo.

Os pobres ao tentarem incorporar os valores dos ricos e seu estilo de vida sacrificam sua existência em prol de migalhas ao mesmo tempo em que perpetuam e fortalecem a dominação a que estes lhes submetem. A compra a crédito é o exemplo mais claro disto. Os pobres conseguem um atalho para comer como ricos, mas este atalho é de mão única e o pedágio lhes rouba quase tudo. O Brasil ao importar os costumes do norte sacrifica quase toda a sua população e aprofunda sua condição de dependente. Os jovens para consumirem como velhos, sacrificam sua criatividade, inteligência, tempo e libido – todos estes atributos juventude que não poderão ser fruídos na velhice.

Semelhantemente, de mãos dadas com toda pequena facilidade, todo pequeno comodismo, caminha um sacrifício. Por detrás do Google, está sua privacidade; por detrás da Microsoft, a sua liberdade; da Apple, o seu conhecimento; dos direitos de propriedade intelectual, o déficit na balança comercial e o intransponível abismo potencial tecnológico que separa a periferia do centro.

Os motes da civilização atual são a harmonia, a integração e a cooperação. A arte hoje serve de camuflagem para a realidade de guerra quotidiana – e, ironicamente, ao invés de tentar enxergar através do disfarce, nós o desejamos, financiamos. Guerra. Fragilizou-se a capacidade de auto-determinação do ser humano a tal ponto que isto soa rude ou antiquado. Guerra. Parece um meio descuidado de exercício de poder. Porém, se se pretende romper com os grilhões do gozo fácil, porém fraco, de um Iphone 3G, é preciso rejeitar os favores, os simplismos, os confortos, é preciso deles não depender, estar ciente daquilo que se perde ao ejacular com o membro alheio.