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Archive for the ‘livros’ Category

[tradução]

Ter, 22 Jul 2008, 203 Andre 2 comentários
tille, machtelt, garrels

tille, machtelt, garrels

Começando na data de hoje (22.7.2008), iniciarei o trabalho de tradução para o Português de um guia de introdução ao uso do GNU/Linux feito para newbies. Este guia me ajudou muito na migração para o software livre, deixando muito claros os conceitos fundamentais que envolvem os sistemas baseados no kernel Linux ou mesmo aqueles chamados de Unix-like (no que se inclui uma vasta gama de sistemas operacionais, além do GNU/Linux, foco do guia).

Assim, mesmo considerando que hoje em dia é possível migrar para o GNU sem ter lido um guia ou mesmo sem ter experiência com informática (falo aqui por experiência própria), entendendo que este guia pode ser muitíssimo útil a qualquer usuário que pretenda aproveitar as vantagens ofertadas pelo sistema.

Como eu vim a descobrir, através do uso constante do GNU/Linux, a dificuldade que o usuário sente nos primeiros passos usando o sistema é meramente um problema de aproximação. Acostumados que estamos com o Windows, única experiência de alguns com um computador, nós esperamos que o GNU se comporte como e parta dos mesmos paradigmas do Windows e daí uma certa dificuldade e frustração. Além disso, a superabundância de material escrito e disponível online sobre o GNU pode ser difícil de lidar no início. Desta forma, este guia é muitíssimo útil para consolidar em um só documento todos os conceitos mais relevantes à interação com o sistema.

Com base neste entendimento e no de que o idioma inglês, apesar de muito difundido, ainda pode ser uma barreira de acesso para muitas pessoas, pretendo realizar a tradução para o português deste guia. Como, entretanto, o trabalho de tradução é muito delicado e requer muitas horas de leitura, revisão, edição e formatação, peço aqui a sua ajuda: se você tem domínio do inglês ou do português ou de ambos e está disposto a colaborar, entre em contato comigo por email ou por um comentário neste próprio post.

Lembrando que: (i) não é necessário conhecimento prévio do GNU (o trabalho é apenas de tradução, não iremos rever conceitos técnicos – termos técnicos já encontram tradução padrão); (ii) não é necessário conhecer os dois idiomas (se você só entende bem o português, pode ajudar revisando o resultado das minhas traduções, corrigindo a gramática, melhorando o estilo e os erros de ortografia que certamente ocorrerão); e (iii) mesmo que este post já tenha meses de idade quando você ler, entre em contato, o trabalho pode ainda não estar terminado e precisar de colaboradores.

O guia encontra-se disponível no site do The Linux Documentation Project (tldp.org) e teve como principal autora a escritora belga Machtelt Garrels, as vezes chamada de Tille, também responsável pelo “Bash Guide for Beginners“. A primeira versão do guia é de 2002 e sua última atualização foi feita em junho deste ano. O livro foi publicado em inglês pela Fultus.

[o outro]

Seg, 19 Mai 2008, 139 Andre Deixe um comentário

Um dos traços essenciais da ética da carne será o vínculo de princípio entre o movimento da concupiscência, sob suas mais insidiosas e secretas formas, e a presença do Outro, com suas artimanhas e seu poder de ilusão. Na ética dos aphrodisia, a necessidade e a dificuldade do combate se deve, ao contrário, a que ele se desenrola como uma justa consigo mesmo: lutar contra “os desejos e os prazeres” é se medir consigo.

- Michel Foucault, em A História da Sexualidade II, O Uso dos Prazeres

Ao longo da obra O Uso dos Prazeres, segundo título do conjunto intitulado A História da Sexualidade, Michel Foucault, rompendo com a sua própria metodologia de análise do conhecimento, vai buscar na Antiguidade Clássica Ocidental as raízes daquilo que em nossa sociedade se traduziu como a tomada do sujeito como objeto de estudo, interpretação e reflexão, a hermenêutica do sujeito.

Analisando os mais diversos textos clássicos que sobreviveram até nosso tempo, o autor faz uma dissecação da gênese da ética, da reflexão moral e das primeiras aparições de uma preocupação com a forma com que os homens usavam o seu corpo e, principalmente, o seu sexo.

Seria impossível resumir aqui de forma palatável a fiel uma obra de tamanha profundidade e desligamento com aquilo que é senso comum. Desta forma, é muito mais propício realizar somente uma série de incursões sobre alguns pontos da obra foucaultiana que se mostram mais marcantes, o que será feito ao longo de uma série de posts esparsos abordando diversos temas com ligações às vezes remotas.

A citação acima traz um chamativo especial. Para quem já tem algum conhecimento básico da obra de C G Jung, um paralelismo aparece gritante nesta passagem não tão foucaultiana assim.

A civilização ocidental há muitos e muitos séculos encontra-se sob uma influência fortíssima do cristianismo, não aquele de Cristo, mas aquele dos cristãos. É importante frisar esta distinção. O cristianismo tal como pregou um dia Jesus Cristo tem muito pouca relação com aquilo que é praticado pelos que se disseram e dizem cristãos ao longo dos dois últimos milênios. Cristo um dia pregou uma palavra de compaixão, perdão e servidão; rompendo de forma frontal com os paradigmas anteriores do Velho Testamento, época em que imperava um pacto de sangue, na qual tudo se lavava em sangue.

Cristo ao longo de muitas passagens deu exemplos e incitou todas as pessoas a perdoarem infinitas vezes, se preciso fosse, as mais violentas ofensas, mostrando-lhes que antes de qualquer julgamento ou reação era necessário reconhecer os próprios erros e lutar para corrigi-los. Ele explicitamente disse: “Não julgueis para que não sejais julgado.” Os cristãos, entretanto, muito pouco atentam para estes ensinamentos.

Em nossa tradição cultural cristã, operou-se uma cisão naquilo que os antigos chamavam de alma e que nós chamamos de psiquê. Ao passo em que os antigos e os orientais enxergam os desejos e a razão como ambos pertencentes simultaneamente à natureza do ser humano, para a nossa tradição cultural, conveio separá-los, atribuir ao outro os desejos, os prazeres, as tentações e a si mesmo as virtudes do domínio próprio e da razão.

Esta cisão não foi operada sem danos, como já bem frisou Jung. A ruptura entre essas duas instâncias da psiquê que Jung descreveu de maneira minuciosa e denominou de anima e animus, deu causa a uma frustração proveniente da parte subjugada e rejeitada que se reflete de várias formas na maneira como irá se desenvolver a personalidade do indivíduo. Para resolver esta questão, Jung fala em um processo de individuação que requer como um dos passos iniciais o reconhecimento da existência interior desta sombra que nos acostumamos a ver refletida no outro.

Ironicamente, os nossos ancestrais culturais gregos, ao que indica a análise foucaultiana, já se encontravam um passo adiante no caminho da individuação ao reconhecer de imediato que tudo encontra-se presente na alma do indivíduo e cabe a ele aprender a como melhor lidar, usar, praticar, gerir o substrato de sua própria alma. Na Antiguidade Clássica é que começou a cantar louvores aos homens que conseguiam subjugar seus próprios instintos à sabedoria de sua razão, o que já denota um princípio de ruptura. Contudo, entre os gregos o prazer deveria ser dominado para ser melhor utilizado, falava-se em uma arte do gozo, uma economia dos prazeres, sugestões de como aperfeiçoar, maximizar o seu gozo sem deixa-se sucumbir.

Desta maneira, vislumbra-se um certo reencontro. Os gregos buscavam não se deixar levar nem pelo extremismo dos prazeres sem medida, nem pelo radicalismo da castidade cristã. Cantava-se à construção da vida, da personalidade como uma obra de arte, a mais preciosa arte.

Perdeu-se, contudo, este conhecimento já antigo, o que certamente se traduz em alguns problemas de aceitação/segregação na sociedade moderna, sociedade do medo do outro. O outro passou a simbolizar estes impulsos animalescos, “instintos baixos” que temos em nós mesmos e que sabemos não ser capazes de destruir, aniquilar, embora tenhamos aprendido a isto querer. Por esta razão a xenofobia, por esta razão o racismo, por esta razão a marginalidade e a anormalidade. Quanto mais alheio nos parece um ser humano, mais passível ele será de encaixar-se em nossa imagem psíquica da sombra, do demônio dos desejos animalescos sem controle, do Id, mais passível ele é de tornar-se objeto de nosso ódio (lembrando sempre que este ódio, que encontra suas raízes nos impulsos primitivos da psiquê, será racionalmente justificado para que não aparente impulsividade, mas deliberação).

Contudo, como convencer pessoas tão acostumadas a pensar em duplos binários, em alteridade, a refletir por um segundo sequer sobre seus próprios conceitos de toda uma vida? Como romper com uma ética do medo e do ódio, para uma da aceitação, aproximação e comunhão?

[infotopia]

Dom, 13 Abr 2008, 103 Andre Deixe um comentário

Com uma influência muito clara das idéias de F A Hayek, C R Sunstein escreveu uma obra intitulada Infotopia (2006) na qual aborda os diferentes métodos existentes para agregar o conhecimento que se encontra espalhado por diversas mentes. A obra ainda não encontra tradução em português, não pode ser considerada genial, mas não é nem de longe dispensável.

A hipótese inicial em que se debruça todo o livro é a de que coletivamente a humanidade concentra uma quantidade imensa de conhecimento e as soluções ideais para uma infinidade de tarefas, contudo, este conhecimento encontra-se esparramado por tantas mentes quantas compõe a nossa civilização e, portanto, surge a necessidade de se saber qual a melhor forma de reunir ou agregar esse conhecimento, como incentivar as mentes individuais a compartilharem/revelaram ao grupo o conhecimento que detém.

Note-se que aqui não se fala somente de conhecimento técnico, ou pericial, mas de conhecimento no sentido mais lato que a palavra pode assumir.

As principais formas de agregar o conhecimento esparramado que são discutidas no livro são:

  • votação;
  • deliberação/debate;
  • mercado;
  • blogs;
  • wikis; e
  • open source.

Como já dito, o livro não traz nada de brilhante. Contudo faz algumas considerações interessantes sobre os vícios a que estão expostos cada um desses modelos. Suas considerações mais interessantes encontra-se na análise feita sobre o mecanismo do debate, seriamente criticado.

Estamos acostumados à idéia de que a melhor forma de chegar à melhor resolução para um problema é através do consenso formado após uma deliberação coletiva. A própria democracia sustenta-se sobre este ideal, que o autor descreve ter suas raízes mais remotas em Aristóteles.

Contudo, conforme ilustra o autor, a deliberação esta sujeita a um grande número de vícios e de acordo com diversas pesquisas tende na verdade a viciar opiniões que anteriormente encontravam-se próximas à verdade. Os principais vícios a que se submete a deliberação são a pressão social e a informação em cascata.

A pressão social é um mecanismo que age sobre o indivíduo fazendo com que ele não manifeste sua verdadeira opinião ou seu conhecimento individual por temor da repressão social que advirá deste. Assim, quando um indivíduo é confrontado com um grupo em um debate, quando ele souber que sua opinião é divergente daquela compartilhada por uma maioria ou por representantes poderosos dentro do grupo, a tendência é de que ele calará o conhecimento que detém individualmente. Isto porque, os agrupamentos sociais tendem a comportar-se como massas que reforçam suas certezas naquelas do próprio grupo e o conhecimento dissidente é visto como uma ameaça ou contestação à autoridade do grupo. Assim sendo, o indivíduo que sozinho detém um conhecimento que contradiz a sabedoria do grupo sentir-se-á tentado a calá-lo por medo de ser mal visto pelo grupo e de sofrer sanções dissidente. Mais ainda, este indivíduo será ainda mais propenso a se calar caso ele pertença a um subgrupo com pouca autoridade ou mal visto dentro do próprio grupo (mulheres, adolescentes, grupos étnicos, etc).

A informação em cascata tem um efeito idêntico, mas por razões distintas. A informação em cascata ocorre quando as opiniões que vieram a surgir no grupo antes passam a influenciar as que irão surgir depois. O exemplo claro disto é a tradição. O conhecimento tradicional é um óbice à dissidência. Isto porque, quando um indivíduo detém uma informação que contraria o conhecimento tradicional ele muito provavelmente irá calá-la, não apenas porque teme a repressão social, mas porque acredita estar errado. O pensamento que resume isto seria: “se tantas pessoas pensam o contrário, eles devem estar certos e eu errado”.

O grande problema é que é justamente este conhecimento individual minoritário que é mais importante e mais difícil de se conseguir. O conhecimento que é partilhado por muitas pessoas ou por pessoas muito estimadas ou importantes é diversas vezes repetido, redito, refalado, não há porque se preocupar em acessá-lo, pois ele nos atinge ainda que contra a nossa vontade. Por outro lado, o conhecimento mais raro dentro da sociedade, mas muito importante para a elucidação dos problemas, na grande parte das vezes permanecerá calado por conta principalmente destes dois efeitos acima descritos.

Como então acessar este conhecimento? O debate leva à polarização do conhecimento que já é compartilhado por um grande número de indivíduos, o que sobra? Aqui entra Hayek.

Hayek elaborou a hipótese da teoria do preço. Se os indivíduos puderem lucrar com o conhecimento que detém sozinhos em oposição à ignorância em que se encontram os demais, o lucro será um ótimo incentivo para que usem e abram esse conhecimento aos demais. O exemplo ilustrativo mais claro disso são os mercados que existem nos EUA para realizar apostas sobre os presidenciáveis ou os vencedores do Oscar.

O que torna o mercado particularmente eficaz é que ele seleciona a informação de qualidade. Quando se realiza uma média por votos, ou um debate, pessoas com opiniões fracas ou sem opinião (opinião randômica) tem peso de decisão idêntico ao daqueles com opinião de qualidade ou em embasada. Por outro lado, no mercado, aqueles que não têm opiniões ou as têm fracas ou não irão apostar ou apostarão pouco, ao passo que aqueles que têm convicção de suas opiniões e bom embasamento irão ver isto como uma oportunidade para ganhar muito dinheiro e apostarão alto.

Claro que o mercado também está sujeito a alguns vícios. O mais proeminente deles é o das bolhas especulativas. As bolhas especulativas ocorrem quando os indivíduos compram mais de um mesmo ativo ou pagam a mais por ele não por acharem que ele valha mais, mas por acharem que os demais acham que ele vale mais, fenômeno que leva a uma acelerada elevação de preços seguida de uma brusca queda.

A análise do autor torna-se mais fraca com os fenômenos mais recentes dos blogs, wikis e open sources.

A dificuldade parece advir do problema do lucro. Quando se pensa em incentivo em nossa sociedade, imediatamente pensamos na palavra lucro. Qual a maneira de incentivar uma ação? Garantir um lucro para quem realizá-la. Contudo, aqueles que contribuem com blogs, wikis e open sources muitas das vezes não obtém qualquer retorno financeiro, portanto, qual o incentivo? Por que dá certo?

A resposta para esta pergunta permanecerá em aberto neste post. O autor do livro apenas aponta algumas considerações, sem levantar nada conclusivo, talvez por medo de se expor, conforme a própria teoria por ele defendida de que a pressão social muitas vezes cala o conhecimento individual. Entendo que a resposta para esta pergunta merece um post particular, o que será feito em um futuro próximo.

Categoriaslivros

[trabalhe em casa]

Qua, 9 Abr 2008, 99 Andre Deixe um comentário

Em 14 de março foi publicado aqui um artigo em que se teceram alguns comentários a respeito do ambiente de trabalho, destacando, principalmente, a diferença entre ser competente e parecer competente, notatamente favorecendo-se uma postura mais descontraída, mas jamais menos comprometida, no ambiente profissional.

Pois bem. Ocorre que neste mesmo artigo, uma outra crítica deixou de ser feita por conta da extensão exagerada que o texto assumiria. Agora, então, faz-se aqui um contraponto ao que lá foi dito.

Já não é de hoje que se ouve falar de empresas que preocupam-se com o bem estar dos seus funcionários, em fazer com que eles tenham prazer e motivação para trabalhar. Iniciativas como aquela da Google Inc. a que me referi há algumas semanas não são casos isolados, nem mero luxo de algumas empresas geeks ou indies.

Na mídia tradicional apenas se houve falar sobre as maravilhas destas mudanças na organização das empresas e como isso demonstra a preocupação delas com o bem estar dos funcionários, como essas empresas mostram-se mais humanas e respeitam as necessidades das pessoas que nelas trabalham e estão interessadas em fazer com que eles sintam-se em casa. Entretanto, apesar da magia com que pintam estas idéias, é impossível de assinalar um viés claramente interessado dessas mudanças.

As empresas concentram em suas próprias estruturas ambientes de diversão, lazer, alimentação e descanço. De início estas facilidades parecem ser maravilhosas, porém, a longo prazo, elas são castradoras. Quando no local de trabalho concentram-se todas as atividades de rotina de uma pessoa, além da própria vida profissional, o trabalhador, e na mesma medida o sócio-administrador, passam a coviver com as mesmas pessoas em todas as áreas das suas vidas que anteriormente encontravam-se divididas. Mas o que isto importa?

Este fenômeno é interessante por diversos fatores, dentre os quais, aqui se pretende ilustrar apenas alguns poucos.

Durante um longo tempo, as pessoas com quem trabalhávamos, com quem comíamos, com quem bebíamos, com quem jogávamos futebol, com quem íamos para a balada, com quem dormíamos e com quem passávamos nossos feriados eram grupos de pessoas distintas. O modo de se relacionar com cada um desses grupos de indivíduos era diverso, os afetos diversos e a liberdade diversa. Também, as idéias, os motivos, e a lógica de cada um desses grupos eram diversos. Assim, ao longo da semana éramos expostos às mais variadas formas de ser, conhecer e pensar.

A partir do momento em que as empresas passaram a concentrar em sua estrutura todas as demais atividades que não a estritramente profissional e, em conjunto, aumentaram-se as horas de trabalho (eis aqui o interesse), esses grupos distintos de pessoas aos quais anteriormente estávamos expostos cada vez mais tornam-se um único e reduzido grupo, o grupo de pessoas com quem trabalhamos.

Isto notadamente muda a nossa forma de ser e pensar. Quando se convive com um mesmo grupo de pessoas em todos os momentos da vida por um período muito longo, esta convivência inexoravelmente afeta o nosso modo de pensar, ser e agir. Cria-se, ao longo do tempo (que nem precisa ser muito longo), uma sub-ética do grupo, acompanhada incessantemente por uma constante vigilha de uns sobre os outros, um controle do que se faz ou deixa de fazer.

Os indivíduos inevitavelmente sucumbem ao controle do grupo e acabam fortalecendo o pensamento corporativo ou grupal. A identificação dos indivíduos deixa de ser com a humanidade, com uma religião, com um território nacional, com uma pertença étnica e passa a focar-se na pertença corporativa.

Dois são os problemas dessa micro-massificação. Em primeiro lugar, o problema já exposto do indivíduo submetido em todos os momento de sua vida à vigilância de um mesmo grupo com uma ética muito estreita e interessada, já que poucos são os membros daquele grupo e pouco distintos entre si para desenvolverem uma crítica real de seus próprios pensamentos. Suprime-se do indivíduo a liberdade conquistada com a expansão demográfica e anonimidade dos centros urbanos.

O segundo ponto tem relação direta com a sociedade como um todo. Como os indivíduos encontram-se repartidos em milhares de microgrupos os quais dificilmente convivem entre si, cresce o sentimento de alienidade que dificulta muito a comunicação. Os pertencentes a um desses grupos dificilmente passam longo tempo com aqueles de grupos diversos e ao longo do tempo perdem a identificação que tinham até mesmo com suas famílias. A composição de idéias e interesses fica impossibilitada, já que a própria comunicação e compreensão da ética alheia encontra-se extremamente restringida.

Muitos outros pequenos acontecimentos podem ser delineados, em particular Erving Goffman, em seu trabalho que no Brasil ficou conhecido como Manicômios, Prisões e Conventos, descreve em extensão como as instituições totais anulam os indivíduos. Apesar de este post não ser baseado na obra deste autor, a leitura da obra é altamente recomendável para quem se interessa em entender o lado oculto das maravilhas das empresas humanitárias da atualidade.

[his dark materials]

Qua, 26 Mar 2008, 85 Andre 1 comentário

Terminei ontem de ler a trilogia intitulada His Dark Materials (traduzida para o português como Fronteiras do Universo), do autor britânico Philip Pullman. Inicialmente, não cogitava fazer um post sobre a trilogia, por entender que ela fugiria muito ao meu propósito com este blog. Contudo, ao final de hoje, decidi que a trilogia merece um apoio, por ser largamente desconhecida por aqui e ao mesmo tempo ter sido amaldiçoada agraciada com uma adaptação para o cinema.

hisdarkmaterialsDesde a infância, sempre fui fascinado por épicos fantásticos e, bem pequeno, li The Lion the Witch and the Wardrobe (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa), o primeiro dos livros da coleção conhecida como The Chronicles of Narnia de C S Lewis; mais tarde Die unendlich Geschichte (A História Sem Fim) de Michael Ende; Lord of the Rings (Senhor dos Anéis) de J R R Tolkien. Ainda tentei assistir o filme do tal do Harry Potter, mas esse eu achei um porre sem fim.

Todos esses épicos receberam suas próprias adaptações para o cinema, todas muito populares (certo que umas mais do que outras), mas duas coisas chamaram-me a atenção de início. Em primeiro lugar, a coincidência (?) de quase todos eles terem sido escritos por britânicos (exceção feita a Michael Ende). Em segundo lugar, o amplo desconhecimento de His Dark Materials em nossas terras até o lançamento do primeiro filme da trilogia (com a participação de N. Kidman).

Curioso para saber deste épico que se furtou à minha adolescência, fui ao cinema assistir o filme. Desconfiado pelo filme, comprei os livros. Sábia decisão.

Os livros são um prato cheio para quem gosta de histórias do estilo. Mais que isto, eles estão visivelmente em um nível muito superior às demais sagas acima elencadas. A trama é densa, cheia de alusões às mais variadas idéias desde o cristianismo, passando pela física, filosofia, paganismo e chegando às beiradas da psicanálise. As personagens também foram muito bem construídas e cheias de nuances que tornam o romance ainda mais prazeroso. Através do livro o autor tece críticas ferrenhas ao cristianismo em primeiro lugar, mas também à qualquer forma de religiosidade ou hetero-moralidade.

Por tudo o que é, a trilogia conquistou os mais diversos prêmios na Inglaterra e tornou-se muito conhecida, recebendo adaptações para o teatro e rádio. A adaptação para o cinema, entretanto, foi sofrível. Tudo o que tornava a série atraente, madura e ímpar foi retirado, fazendo com que o filme fosse nada mais do que um filminho infantil qualquer. Não aconselho que vejam o filme, senão após a leitura dos livros e apenas para saborear as imagens das personagens, pois a história foi completamente censurada ao ponto de tornar-se mais um filme hollywoodiano sem sal.

Por fim, deixo de escrever uma sinopse da história ou de tecer maiores comentários, pois isto fugiria ao foco. Já existem muitos artigos e sites na rede sobre o assunto e eu quero com este post apenas chamar a atenção para a ótima qualidade do livro, já que o filme conseguiu a proeza de estragar a história.

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