Um dos traços essenciais da ética da carne será o vínculo de princípio entre o movimento da concupiscência, sob suas mais insidiosas e secretas formas, e a presença do Outro, com suas artimanhas e seu poder de ilusão. Na ética dos aphrodisia, a necessidade e a dificuldade do combate se deve, ao contrário, a que ele se desenrola como uma justa consigo mesmo: lutar contra “os desejos e os prazeres” é se medir consigo.
- Michel Foucault, em A História da Sexualidade II, O Uso dos Prazeres
Ao longo da obra O Uso dos Prazeres, segundo título do conjunto intitulado A História da Sexualidade, Michel Foucault, rompendo com a sua própria metodologia de análise do conhecimento, vai buscar na Antiguidade Clássica Ocidental as raízes daquilo que em nossa sociedade se traduziu como a tomada do sujeito como objeto de estudo, interpretação e reflexão, a hermenêutica do sujeito.
Analisando os mais diversos textos clássicos que sobreviveram até nosso tempo, o autor faz uma dissecação da gênese da ética, da reflexão moral e das primeiras aparições de uma preocupação com a forma com que os homens usavam o seu corpo e, principalmente, o seu sexo.
Seria impossível resumir aqui de forma palatável a fiel uma obra de tamanha profundidade e desligamento com aquilo que é senso comum. Desta forma, é muito mais propício realizar somente uma série de incursões sobre alguns pontos da obra foucaultiana que se mostram mais marcantes, o que será feito ao longo de uma série de posts esparsos abordando diversos temas com ligações às vezes remotas.
A citação acima traz um chamativo especial. Para quem já tem algum conhecimento básico da obra de C G Jung, um paralelismo aparece gritante nesta passagem não tão foucaultiana assim.
A civilização ocidental há muitos e muitos séculos encontra-se sob uma influência fortíssima do cristianismo, não aquele de Cristo, mas aquele dos cristãos. É importante frisar esta distinção. O cristianismo tal como pregou um dia Jesus Cristo tem muito pouca relação com aquilo que é praticado pelos que se disseram e dizem cristãos ao longo dos dois últimos milênios. Cristo um dia pregou uma palavra de compaixão, perdão e servidão; rompendo de forma frontal com os paradigmas anteriores do Velho Testamento, época em que imperava um pacto de sangue, na qual tudo se lavava em sangue.
Cristo ao longo de muitas passagens deu exemplos e incitou todas as pessoas a perdoarem infinitas vezes, se preciso fosse, as mais violentas ofensas, mostrando-lhes que antes de qualquer julgamento ou reação era necessário reconhecer os próprios erros e lutar para corrigi-los. Ele explicitamente disse: “Não julgueis para que não sejais julgado.” Os cristãos, entretanto, muito pouco atentam para estes ensinamentos.
Em nossa tradição cultural cristã, operou-se uma cisão naquilo que os antigos chamavam de alma e que nós chamamos de psiquê. Ao passo em que os antigos e os orientais enxergam os desejos e a razão como ambos pertencentes simultaneamente à natureza do ser humano, para a nossa tradição cultural, conveio separá-los, atribuir ao outro os desejos, os prazeres, as tentações e a si mesmo as virtudes do domínio próprio e da razão.
Esta cisão não foi operada sem danos, como já bem frisou Jung. A ruptura entre essas duas instâncias da psiquê que Jung descreveu de maneira minuciosa e denominou de anima e animus, deu causa a uma frustração proveniente da parte subjugada e rejeitada que se reflete de várias formas na maneira como irá se desenvolver a personalidade do indivíduo. Para resolver esta questão, Jung fala em um processo de individuação que requer como um dos passos iniciais o reconhecimento da existência interior desta sombra que nos acostumamos a ver refletida no outro.
Ironicamente, os nossos ancestrais culturais gregos, ao que indica a análise foucaultiana, já se encontravam um passo adiante no caminho da individuação ao reconhecer de imediato que tudo encontra-se presente na alma do indivíduo e cabe a ele aprender a como melhor lidar, usar, praticar, gerir o substrato de sua própria alma. Na Antiguidade Clássica é que começou a cantar louvores aos homens que conseguiam subjugar seus próprios instintos à sabedoria de sua razão, o que já denota um princípio de ruptura. Contudo, entre os gregos o prazer deveria ser dominado para ser melhor utilizado, falava-se em uma arte do gozo, uma economia dos prazeres, sugestões de como aperfeiçoar, maximizar o seu gozo sem deixa-se sucumbir.
Desta maneira, vislumbra-se um certo reencontro. Os gregos buscavam não se deixar levar nem pelo extremismo dos prazeres sem medida, nem pelo radicalismo da castidade cristã. Cantava-se à construção da vida, da personalidade como uma obra de arte, a mais preciosa arte.
Perdeu-se, contudo, este conhecimento já antigo, o que certamente se traduz em alguns problemas de aceitação/segregação na sociedade moderna, sociedade do medo do outro. O outro passou a simbolizar estes impulsos animalescos, “instintos baixos” que temos em nós mesmos e que sabemos não ser capazes de destruir, aniquilar, embora tenhamos aprendido a isto querer. Por esta razão a xenofobia, por esta razão o racismo, por esta razão a marginalidade e a anormalidade. Quanto mais alheio nos parece um ser humano, mais passível ele será de encaixar-se em nossa imagem psíquica da sombra, do demônio dos desejos animalescos sem controle, do Id, mais passível ele é de tornar-se objeto de nosso ódio (lembrando sempre que este ódio, que encontra suas raízes nos impulsos primitivos da psiquê, será racionalmente justificado para que não aparente impulsividade, mas deliberação).
Contudo, como convencer pessoas tão acostumadas a pensar em duplos binários, em alteridade, a refletir por um segundo sequer sobre seus próprios conceitos de toda uma vida? Como romper com uma ética do medo e do ódio, para uma da aceitação, aproximação e comunhão?