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Archive for the ‘mangás’ Category

[kozure ookami]

Qui, 22 Mai 2008, 142 Andre Deixe um comentário

Lobo Solitário, Lone Wolf and Cub ou Kozure Ookami.

Fruto do trabalho de dois mestres do mangá Goseki Kojima e Kazuo Koike, Lobo Solitário começou a ser publicado no Japão no ano de 1970, para acabar apenas no ano de 1976, tornando-se um marco na narrativa de histórias em quadrinhos em todo o mundo.

Para todos os fãs de mangás que nasceram durante a década de 1980 e cresceram ao longo da década de 1990 ao coro de Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Yuyu Hakusho, Lobo Solitário foi sempre um fantasma assombrando as discussões sobre mangás. Sempre havia alguém na discussão que era um pouco mais velho e que fazia questão de frisar todas as vezes que o que nós líamos era lixo quando comparado a Lobo Solitário. Porém, como tanto no Brasil, como nos EUA a primeira tentativa de publicação das histórias do Lobo foram frustradas, era impossível conferir essa suposta obra prima, a não ser que você soubesse japonês e tivesse um paitrocínio muito bom para bancar os importados do Nihon.

Para a felicidade deste público, no início dos anos 2000, a Dark Horse publicou nos EUA a série completa em 28 volumes de aproximadamente 300 páginas cada, seguida de perto pela Panini que trouxe o tão esperado título para as terras brasucas (completando a série em abril de 2007), o que a Abril tinha falhado em realizar e as editoras de mangás já estabelecidas (Conrad e JBC) não demonstravam interesse em fazer.

Dado o status de assombração de que goza o mangá, a leitura inicial é uma experiência confusa. Tem-se uma sensação de que se está obrigado a ler com olhos críticos, prontos a reduzir os méritos da obra e enfraquecer o fantasma do passado. A primeira objeção imediata é o traço de Kojima. Muitos de seus desenhos são feitos de forma muito pouco “clean“, o que gera uma sensação de estranheza que, dada a predisposição crítica inicial, resulta num certo descaso. Em seguida, tem-se um certo estranhamento com as lutas: diferente da maior parte dos mangás da atualidade, em Lobo Solitário as lutas acontecem rápidas, geralmente são definidas em uma única página com golpes pouco claros envolta em diversos quadros de conversas formais entre samurais/filósofos.

Todavia, é impossível não ceder aos seus encantos.

Ao terminar de ler a última página da história, a sensação de completude da obra inunda corpo e alma do leitor. A maior parte de seus capítulos contém histórias semi-independentes que mais se parecem com contos de um viajante e são de leitura extremamente agradável, mas a “experiência Lobo Solitário” (usando a expressão cunhada por Katsutoshi Hirayama) somente por ser sentida por quem lê a obra completa.

Existe no Brasil um preconceito com o gênero das histórias em quadrinhos, que são entendidas como parte do entretenimento infantil (observe-se, infantil, não adolescente, pois mesmo os adolescentes acham que “isto é coisa de criança”), o que não ocorre em outro lugares do mundo. Talvez isto seja reflexo do fato de que o único quadrinho nacional amplamente conhecido seja a Turma da Mônica, o que faz com que todos os títulos sejam imediatamente a ele associados. Entretanto, a realidade é que a história em quadrinhos é um gênero artístico como qualquer outro e, assim como existem livros para crianças, músicas para crianças e filmes para crianças, existem também quadrinhos para crianças, o que não significa que todo o gênero da ilustração seqüencial seja voltado ao público infantil e Lobo Solitário é um símbolo disto.

Não somente, mas assim como existe literatura adulta imbecilizante aos montes no mercado, também existem quadrinhos de baixa qualidade, o que não implica que não existam ‘Guimarães Rosas’ no mundo dos quadrinhos. Este é o ponto em que se chega ao terminar de ler Lobo Solitário.

Certamente, Dragon Ball e Yuyu Hakusho são mangás para o público juvenil, são de ótima qualidade, isto é incontestável, mas são juvenis. Evangelion é magnífico “para uma história em quadrinhos”. V de Vingança é um quadrinho altamente recomendável. Fun Home é uma obra que não pode faltar em sua coleção. 300 de Esparta traz uma narrativa histórica marcante. Vagabond é leitura indispensável para quem gosta de histórias de samurais. Lobo Solitário é uma obra-prima.

Não existem comparações ou paralelos possíveis entre Lobo e a avassaladora maioria dos títulos já publicados. Quando os saudosistas taxavam de lixo aquilo que líamos e chamávamos de mangá, eles estavam sendo injustos. Seria como comparar J R R Tolkien ou Philip Pulman com
Fernando Pessoa ou Franz Kafka. Não existe paralelo possível. E isto não é uma crítica aos primeiros, é apenas o justo reconhecimento de que os seguintes estão em outra esfera de diálogo.

Em Lobo Solitário o leitor é exposto a um quadro extremamente complexo da situação política, econômica e cultural do Japão da Era Edo, o Japão do xogunato Tokugawa. Não somente, mas toda a ética dos samurais, o chamado bushido (caminho da espada) é colocada diante do leitor, capítulo a capítulo, em doses homeopáticas. Para os ocidentais creio que esta experiência seja ainda mais marcante do que o é para os japoneses. As diferenças culturais são gritantes a cada gesto, palavra, andar ou olhar e tudo isto é retratado de maneira brilhante pelos mestres Koike e Kojima. Uma enxurrada de dados históricos, teros japoneses, mitologia popular, são esparramados a todo momento obrigando inclusive os editores a colocarem glossários e comentários ao final de cada volume para auxiliar a leitura.

O mangá conta a história do Koji Kaishakunin (Executor Oficial) do governo Tokugawa Ogami Itto e seu filho recém nascido Ogami Daigoro que, após serem expulsos de sua casa e da cidade de Edo por um golpe elaborado pela família Yagyu para roubar-lhes o honrado posto de Kaishakunin, passam a viver no meifumado (caminho do inferno) como assassinos profissionais procurando vingança contra aqueles que lhes roubaram esposa e mãe. Observe-se que tanto a família Ogami, quanto a família Yagyu, como também a família Kurokuwa existiram todas, tendo sido importantes auxiliares dos Tokugawa e que, de fato, as famílias Ogami e Kurokuwa tiveram sua descendência extirpada por razões históricas obscuras que deixaram sobreviver somente os Yagyu, altamente temidos no Japão feudal e objeto de diversas especulações históricas, dentre as quais se insere a obra prima Kozure Ookami.