Não é todo dia em que temos o prazer de ver nossos ídolos de longa data adotarem abertamente uma postura ideológica que confirma nossos ideais. Hoje foi destes raros momentos para mim.
Ocorre que o mundialmente famoso grupo de humoristas britânicoMonty Python criou um perfil no Youtube através do qual estão disponibilizando livremente todos as suas esquetes e trechos de filmes em alta definição. E como chantilly ainda fizeram um vídeo especial em que tratam ironicamente a controvertida questão de acusar os fãs de estarem roubando os autores quando disponibilizam suas obras online. Seguem o vídeo e a transcrição:
For 3 years you YouTubers have been ripping us off, taking tens of thousands of our videos and putting them on YouTube. Now the tables are turned. It’s time for us to take matters into our own hands.
We know who you are, we know where you live and we could come after you in ways too horrible to tell. But being the extraordinarily nice chaps we are, we’ve figured a better way to get our own back: We’ve launched our own Monty Python channel on YouTube.
No more of those crap quality videos you’ve been posting. We’re giving you the real thing – HQ videos delivered straight from our vault.
What’s more, we’re taking our most viewed clips and uploading brand new HQ versions. And what’s even more, we’re letting you see absolutely everything for free. So there!
But we want something in return.
None of your driveling, mindless comments. Instead, we want you to click on the links, buy our movies & TV shows and soften our pain and disgust at being ripped off all these years.
Realmente não tenho palavras para descrever a minha satisfação para com o grupo.
Há alguns dias assisti ao filme chamado Zeitgeist, lançado há cerca de um ano exclusivamente na Internet. Originalmente o filme foi lançado livremente no googlevideos, sem legendas e com duas horas de duração. Mas, graças a boa e velha colaboração através da Internet, hoje é possível encontrar o filme em diferentes formatos nos motores de busca de torrents mais populares e encontrar as legendas compatíveis no opensubtitles (a legenda em português que eu encontrei não era particularmente boa, mas quebra o galho).
O filme, na verdade um documentário, encontra-se dividido em três grandes partes ou eixos, em que o diretor tece críticas sistemáticas contra o cristianismo (parte I), o 11 de setembro (parte II) e os grandes Bancos Internacionais (parte III). Para os que gostam de teoria da conspiração, o documentário é um prato cheio.
Para não ser estraga prazer, não vou antecipar o conteúdo do filme. É suficiente dizer que se trata de umaexortação ao cidadão médio para que abra sua mente para uma postura crítica a respeito de temas convencionais ou sobre a forma como as informações e o conhecimento nos são transmitidos. Principalmente por conta do seu ataque ao cristianismo, o documentário foi atacado pelos fundamentalistas de plantão e creio que seu ponto principal acaba ficando um pouco de lado dando vazão a um monismo temático sobre o cristianismo.
O ponto forte do documentário ao meu ver não está em “provar” que o cristianismo não passa de histeria coletiva, que os ataques do 11 de setembro foram orquestrados pelo governo Bush, seguindo a mesma estratégia usada por Mr Susan em V for Vendetta ou que os banqueiros escravizam não só o proletariado, mas nações inteiras (aqui inclusos governos e empresas). Está em exortar o pensamento crítico, a busca individual pelo conhecimento ou pela verdade. Ao final do filme, o diretor ainda relembra aos espectadores que o próprio filme não deve estar imune a este senso crítico e clama que o conteúdo apresentado não seja aceito como verdadeiro.
Neste ponto crucial encontro o grande mérito do documentário que parece distanciá-lo da crítica jornalística sensacionalista (rasa) de um Michael Moore. Não importa a Verdade. O Certo. Importa a liberdade de pensamento, a autonomia de idéias e autodeterminação ética (até o limite do possível). Note-se, ainda, que a liberdade não é com relação a uma sociedade opressora, uma elite castradora ou da moral do viés único. É uma liberdade da preguiça mental, do marasmo do senso comum, da escravidão do comodismo. Libertação do sempre fácil argumento de autoridade.
Sou um tanto quanto cético com relação ao papel que este filme pode desempenhar como o “meio de libertação”. As pessoas a quem ele agrada são bem aquelas que já concordam com este ponto central (e portanto não são influenciadas), ao passo que aquelas que o filme pretende influenciar (se um dia vierem a assistir o filme), vão apenas rejeitá-lo com base nas mesmas velhas premissas morais. Em todo caso, fica a dica para os que se interessarem.
Um filme até certo ponto muito ignorado, dentro do que um filme estadunidense pode ser, The Truman Show vale a pena ser visto e traz diversas possibilidades de interpretação, um pouco ao gosto do intérprete.
Para quem desconhece, é um filme Peter Weir, cujo protagonista é interpretado por Jim Carrey. Sim, sim sim, Jim Carrey não é um nome que desperta muita confiança, aliás a maior parte das pessoas detesta seu estilo, ainda assim, insisto que o filme merece atenção.
O enredo nos conta a história de um homem que, desde o ventre de sua mãe, teve a vida toda transmitida ao vivo para o mundo inteiro 24h por dia 7 dias por semana, sem que ele jamais soubesse. (Uma espécie de sátira dos reality shows, o mais interessante é que o filme foi lançado um ano antes do primeiro programa deste gênero. Neste sentido, é um pouco difícil determinar se ele de certa forma previu o aparecimento dos reality shows ou deu-lhes causa.) Para fazer com que ele não descobrisse que sua vida na verdade era uma farsa, foi construído um estúdio gigantesco no qual se inseria uma ilha com uma cidade cercada pelo mar e uma floresta. Todas as pessoas com as quais Carrey convive são na verdade atores, incluindo sua mãe, pai, melhor amigo e esposa.
Não é preciso dizer mais, o filme narra o esforço de Carrey para conseguir sair deste mundo no qual está preso e ao final como ele finalmente consegue fazê-lo.
A partir disto inúmeras interpretações são possíveis. A primeira, mais evidente, mas também mais insossa, muito provavelmente é a de cunho religioso/cristão. O roteirista, idealizador e responsável último pelo show é um homem chamado Christof, evidente referência ao messias, com um certo sarcasmo, vez que pode ser escrito como Christ off.
As aparições desta personagem certamente são alusões diretas ao cristianismo, o que se vê pela própria postura adotada pela personagem que, em todos os momentos, não obstante as críticas que a ela são feitas por estar manipulando uma vida, fazendo desta um joguete, um objeto de lucro, continua firme em sua posição de que ela na verdade faz um bem para Carrey. Em vários momentos ela inclusive arroga a si uma postura de criador, pai, daquele que zela pelo bem estar deste. Ela chega a dizer expressamente que “ninguém conhece Carrey tão bem quanto ele”, e que ela “criou este mundo em que Carrey vive somente para este e criou perfeito para que fosse feliz”. A partir disto o paralelismo com o ideário cristão parece ser forçoso, ainda mais quando somado à incessante vigilância exercida sobre a vida de Carrey.
Outras formas de interpretação, contudo, incomodam mais do que a já tão velha crítica à religião cristã.
Por exemplo, o viés filosófico que pode ser encontrado no filme. A libertação, a separação com o mundo, a formação de uma identidade individual foram sempre questões intimamente ligadas com a postura ético-filosófica. Neste sentido, o filme, de uma forma certamente forçada e absurda, mostra como nós somos propensos a aceitar o mundo como ele nos é apresentado, como nossos conceitos e opiniões, não obstante o possessivo, não são tão nossos quando acreditamos serem, como nossas balizas são estreitas.
Pense bem. A hipótese do filme parece ridícula. Um homem que jamais saiu da cidade em que nasceu e não percebe estar dentro de um estúdio? Como isto seria possível? Contudo, quão maior é a extensão do mundo que conhecemos? É óbvio que são muitíssimo raros os casos de pessoas que nunca saíram da cidade em que nasceram, mas expandindo um pouco a linha de raciocínio, quantas pessoas existem que nunca deixaram seu estado, seu país, seu continente? Mesmo dentre aquelas que são “muito viajadas“, costuma-se dizer no retorno: “conheci a França, a Holanda e a Dinamarca”. Será? Quantas cidades em cada um desses países você conheceu? Quantos metros quadrados de cada uma dessas cidades? Quão longe você se afastou do mundo metropolitano que é o mesmo em qualquer metrópole?
A distância percorrida em quilômetros implica muito pouco. Comer um Big Mac e pagar com MasterCard é a mesma coisa aqui, em Madrid, em Berlim, em Tokio ou em Boston. A distância mais importante encontra-se naquilo que poderíamos chamar de distância cultural ou distância real. Um rico que vá visitar uma favela ou um pobre que vá visitar uma mansão vão ambos se sentir muito mais alheios nestas situações do que caso viagem 1000 quilômetros e cheguem em lugares com situações sociais semelhantes, não obstante as diferenças climáticas ou o idioma.
Mas não apenas isto. Rico e pobre ainda são uma alusão tosca ao que chamei acima de distância cultural, pois, no fim das contas, ambos estão submissos a um mesmo rol discursivo a uma mesma cultura, ainda que os reflexos e a interiorização desta cultura ocorram de maneiras diferenciadas em um ou noutro. Maiores distâncias podem ser encontradas em diferentes discursos éticos e comportamentais de distintos pontos no espaço tempo. O bushido ou caminho do samurai, por exemplo, encontra-se muitíssimo distante de nossa realidade cultural. Quando nos deparamos com este tipo de distância, a primeira reação é a de superioridade. Formas de subjetividade muito distintas da nossa sempre tendem a apresentar-se como ilógicas, absurdas.
Entretanto, o quando de nossa individualidade é resultado de nossa personalidade, nossos impulsos, nossa racionalidade e o quanto é resultado de um trabalho de modelagem que o outro, os outros, nos forçaram? As idéias deterministas são inevitáveis. Qual o limite de autodeterminação de um sujeito? Se é que se pode falar em liberdade de vontade e julgamento.
Certamente, parece ridículo o comportamento dos atores no filme, como todos fazem uma pressão ridícula de normalização em Carrey. Porém, por mais ridículo que seja o exemplo, ele toma por base uma verdade muito concreta. Christof ainda faz uma observação interessante, quando, em dado momento do filme, ele diz que não está obrigando o Truman a nada, haja vista que se este de fato desejasse a liberdade, nada poderia resistir à força desta vontade e ele poderia escapar facilmente do estúdio e concluí dizendo que ele apenas continua no estúdio porque no fundo ele tem medo de sair, acha confortável ficar.
Esta cena dá asas a uma outra forma de enxergar o filme, remetendo às pressões sociais que interiorizamos e que nos castram o comportamento. É certo que estas pressões são inevitáveis em qualquer convívio grupal, mas o que é interessante é que nem sempre as pessoas têm imediata consciência da alteridade destas pressões. Algumas delas encontram-se tão presas em nossa própria persona que não as conseguimos distinguir daquelas motivações que nos são próprias.
Ainda é possível discutir o filme com base em outras formas de interpretação interessantes, como a de que ele faz uma crítica à alienação que a sociedade midiática produz. Em vários momentos do filme, o diretor fez questão de mostrar-nos os telespectadores que acompanham o show. Impossível deixar de notar a miséria existencial de todos eles: dois seguranças de estacionamento que passam o dia comendo e vendo o show; duas senhoras que estão sempre ao sofá agarradas em almofadas com o rosto do Truman, atendentes de um bar que sempre que podem abandonam o balcão para acompanhar o show; um homem que passar horas na banheira assistindo tv.
Esta crítica parece ser mais importante no filme do que aquela mais imediata sobre o direcionamento intelectual das indústrias da mídia. Muito mais do que atacar os produtores do show, o diretor também faz um ataque direto ao público, que, contudo, é difícil medir a eficácia, dada a capacidade do público de identificar-se com o herói, ignorando sua própria condição quando retratada em uma história.
É interessante notar, ainda, a crítica ao american way of life, que atualmente está mais para general way of life. O filme mostra de forma evidente a ironia castradora e o alto custo da incessante busca por segurança, tranqüilidade e felicidade na sociedade capitalista. As formas de subjetivação em nossa sociedade são cada vez mais pobres, frágeis, mesquinhas; por detrás de todo o conforto está um sujeito patético.
Como em qualquer outra história, também é possível fazer uma interpretação psicológica do filme, retratando o amadurecimento da personalidade quando esta se desvincula da persona e vai em busca de um eu verdadeiro. Pode-se, ainda, analisar o vouyerismo geral da sociedade, um verdadeiro “goza com o pau dos outros” que encontra-se altamente difundido em nosso mundo contemporâneo. As pessoas satisfazem-se em assistir a vida de outros, vibrar com vitórias de outros ou com a derrota dos outros (pra turminha do sadismo).
Nisto inclui-se a angústia com o futebol a que me referi no post anterior. É triste ver como acostumamo-nos a nos identificar com coisas que na verdade nos são completamente alheias. Não que se condene o ato de assistir e torcer. Este ato é semelhante a qualquer outro ato contemplativo, o que está longe de ser condenável. Não há porque condenar quem se envolve com uma boa música ou com uma brisa no rosto ao assistir ao pôr do sol. Todavia a partir do momento em que este ato contemplativo, este prazer sensível passa a tomar conta do eu a ponto de moldar sua personalidade, seus comportamentos, trazendo-lhe tristezas, angústias e raiva, toda a situação perde o sentido.
Uma pena este filme ter recebido tão pouca atenção, ainda mais em meio ao mar de produções de péssima qualidade que estamos acostumados a receber empacotados para aquela hora e meia de distração.
É irônico perceber que grande parte do fluxo redirecionado a este blog seja proveniente de pesquisas feitas em buscadores por termos que nada têm a ver com os assuntos aqui debatidos de forma mais extensa.
Em verdade os dois posts que até agora receberam o maior número de ocorrências em pesquisas feitas por palavras-chave foram seriedade e gta4. Dentre os dois, contudo, o da seriedade é o que mais freqüentemente aparece e incomoda.
E isto por duas razões que na realidade são faces diversas de uma mesma moeda. O post sobre o gta4 recebe redirecionamento de pessoas que procuraram informações sobre o jogo, que nada tem a ver com as questões usualmente debatidas neste blog, porém foi resultado de uma decisão consciente de atrair a atenção para o jogo, como forma de evitar um estreitamento desnecessário a alguns poucos assuntos-chave (e o conseqüente estreitamento do número de interessados, que nem de longe é o foco principal deste blog); ao passo que o post sobre a seriedade, que buscou uma postura levemente crítica do modo de ser do mundo corporativo, recebe grande fluxo de pesquisas pelos termos terno, grava e trajes de trabalho, trazendo grande fluxo de pessoas para o blog, mas que, ao perceberem que ele não trata do assunto esperado, rapidamente migram para outras ocorrências.
Assim, a grande ironia do post sobre a seriedade é que ele, não tratando de temas centrais a este blog, traz alto fluxo de leitores diariamente ao blog que, contudo, jamais se detêm na leitura dos demais posts. E esta continuada pesquisa pelos termos acima demonstra em dois tempos que é largamente difundida a postura criticada naquele post e, paralelamente, que é muito difícil abordar temas mais complexos, profundos ou marginais fora dos nichos em que eles são usualmente foco de debates.
Ao refletir sobre esta questão, lembrei-me de um trecho do filme “The Meaning of Life” (1983), do grupo britânico Monty Python. O filme, não é demais dizer, é uma obra genial, no melhor estilo de humor britânico, a arte do absurdo. Altamente recomendado para os fãs de um bom humor. O trecho, que segue abaixo, mostra alguns executivos reunidos para tratar do tópico “The Meaning Of Life” que supostamente teria sido objeto de estudos por um grupo de trabalho encabeçado por um dentre os executivos.
Quando este executivo toma a palavra ele faz um breve comentário sobre as pessoas não estarem usando chapéis e passa a uma reflexão cômica sobre as correlações entre matéria, energia e espiritualidade que dão origem à vida, numa fala evidentemente pitoresca, concluindo que as pessoas tem uma grande capacidade de se distraírem de problemas espirituais e existenciais por questões triviais do quotidiano.
Após a fala, silêncio e caras de conteúdo, quando surge um comentário:
Kiffen erstickt die Revolutionäre Energie der Jugend (“As drogas sufocam a energia revolucionária dos jovens”)
Ética da resistência.
Acabo de assistir ao filme Edukators (2004 – Die Fetten Jahren sind vorbei), um filme alemão muito aclamado que ficou famoso aqui no Brasil, mas que eu sempre deixava de canto na minha lista de filmes “a assistir” por achar que seria apenas mais um filme piegas pseudo-intelectual. Em parte, acho que a culpa desse estigma é do título que o filme recebeu aqui no Brasil.
Como eu já esperava, o filme não traz um debate filosófico/sociológico profundo, nem pode ser considerado genial ou obra-prima. Se fosse, muito provavelmente não teria feito tanto sucesso. Também não há nada de verdadeiramente surpreendente na narrativa ou desenlace do enredo, mas, ainda assim, é um ótimo filme e faz jus à atenção que recebeu.
O filme tenta chamar a atenção do espectador para a angústia dos jovens da atualidade, que vivem em um mundo onde a revolução já foi intentada de diversas formas e falhou em todas, um mundo onde o capitalismo prevaleceu e parece não haver mais espaço para qualquer idealismo, um mundo onde a juventude não encontra vazão para as suas angústias e, além do mais, parece estar cercada por ceticismo e conformismo.
Sendo eu mesmo um jovem, senti-me particularmente afetado pelo sentimento que o filme busca passar. Em nossa sociedade parece não haver de fato qualquer espaço para mudança outra que não seja a mudança conforme as regras do sistema. O idealismo e a utopia são vistos pelos próprios jovens como demonstrações de imaturidade. O questionamento ao sistema tem ares de anacronismo. O pensamento crítico parece ter sido incorporado pelo sistema vigente como um modo de dar vazão à energia que, se melhor focada, poderia de fato abalar as bases de nossa sociedade.
Em um dos diálogos do filme, um dos protagonistas, Jan, faz uma alusão à Matrix. Isto me fez pensar no papel da Oráculo. Para quem já não se lembra, a Oráculo foi a solução semi-ideal encontrada pelas máquinas para dominar o cérebro humano. Após muitos insucessos, os computadores perceberam que a dominação absoluta e opressiva tendia ao fracasso, ao passo que se fosse dada aos humanos a chance hipotética da idéia de rebelião, muito poucos seriam aqueles que de fato a intentariam e sua rebelião jamais teria o condão de ameaçar o sistema. Em outras palavras, a rebelião era orquestrada pelas próprias máquinas através de um de seus softwares, especialmente desenvolvido para estimular a crença de que era possível um outro mundo. A revolução foi incorporada ao sistema.
Apesar de muitos acharem Matrix um outro blockbuster da mesma família de Lord of the Rings e Star Wars que apenas usa algumas citações em latim para parecer cult, eu acho que essa trilogia, diferente das outras, aborda marginalmente algumas idéias interessantes, da mesma forma que o filme Edukators o faz.
A revolução é possível?
Essa pergunta já é batida e cada um tem seu palpite baseado em o que quer que seja. Eu creio que parte da resposta está em saber a resposta para outra pergunta: queremos uma revolução? Ou então, quem quer revolução?
Minha opinião é que, em grande parte, as revoluções esquerdistas sempre fracassaram porque sempre foram poucas as pessoas que a desejaram. Não somente, mas parece pouco provável que um dia consigamos inverter as proporções entre os acomodados (ou indiferentes) e os incomodados. Apesar de ser verdadeiro afirmar que existe somente uma minoria que se beneficia de fato do sistema, não é verdadeiro afirmar que a maioria a que aqueles se opõem está incomodada com as regras do jogo. O capitalismo é um sistema ideologicamente forte porque diferente dos demais ele sabe transmitir sua ética de forma quase hegemônica dentro da sociedade. As pessoas que não estão no grupo de elite não sonham com uma outra sociedade, elas sonham em fazer parte da elite.
M. Foucault, filósofo francês que tem presentemente me fascinado, descreveu ao longo de sua obra as complexas relações quotidianas diretas entre o poder e o saber, e como o poder é exercido dentro da sociedade através dos diferentes discursos (saberes, idéias, conhecimentos) que se disseminam através do grupo. Em particular, em um capítulo de livro Surveiller et Punir (em português traduzido como “Vigiar e Punir”), descreve como em nossa sociedade o poder disciplinar organizou as massas e dilapidou os corpos, tornando-lhes fortes e aptos para o trabalho, porém desprovidos da capacidade de utilizar esta força de outro modo que não para manter a estrutura. A obra é magnífica, extremamente complexa e de difícil compreensão, porém, acho particularmente interessante perceber o quão eficaz é essa disciplina dos corpos e enfraquecimento das mentes.
A todo tempo funcionam ao nosso redor mecanismos que buscam captar nossa atenção para evitar que empenhemos nosso tempo e energia de forma livre. No filme, Jan alude a esta idéia falando da TV. De fato a tv tem um poder de anulação impressionante, mas eu acho que ele é enfraquecido por ser muito evidente. Menos evidente parece-me o poder de enfraquecimento que tem nosso sistema educacional, o modo como nos acostumamos a obter o conhecimento, dentre muitas outras coisas. Aprendemos que a instrução é item basilar para a inserção social. Por isto, desde muito cedo freqüentamos escolas, cursos de idiomas, cursos de vestibular, cursos para concursos, curso para culinária, curso para photoshop, escola de futebol, escola de esportes, curso de informática, curso de excel, curso de fotografia, curso de gerenciamento de recursos, curso de cinema, curso de programação, etc.
A lista tende ao infinito. Pode-se achar em uma metrópole pelo menos cinco lugares diferentes onde se pode conseguir apostilas e um curso de curta duração para qualquer coisa que você quiser, desde jardinagem até física quântica. Até mesmo nossas universidades aderiram ao modelo. Os cursos universitários são formulados do mesmo modo que o demais dos cursos. Uma cúpula de entendidos traça o programa ou roteiro que as aulas, disciplinas ou matérias devem seguir, quais temas e assuntos devem abordar e qual o enfoque deve ser dado. Não somente, mas os próprios alunos clamam por professores que estejam antenados com o “mercado” e saibam transmitir de forma indolor tudo o que se precisa saber para conseguir se inserir. O conhecimento mercantilizou-se e é produzido e disseminado através da lógica do mercado, através da escala.
Não existe espaço para a iniciativa individual. As pessoas conformaram-se com a postura passiva e orgulham-se de conquistas passivas. O ideal de muitos tornou-se conquista um título, seja ele acadêmico,profissional, mobiliário ou imobiliário. Todos emblemas de conquistas passivas e prêmios dados, não construídos. Nesse sentido é emblemático o conceito de pró-ativo trazido diretamente do mundo do business. Num primeiro momento, parece que o sujeito pró-ativo seria o oposto do sujeito passivo. A verdade é exatamente o inverso. O sujeito pró-ativo é justamente o ideal da passividade. O pró-ativo nada mais é do que aquele que busca por si mesmo fazer o que se espera que ele faça. Toma a iniciativa em cumprir bem um papel pré-moldado.
Particularmente, não acredito em revolução que não seja a individual. A saída da ação individual, contudo, parece-me distante daquela idealizada por Jan. Não creio que a solução de modo algum esteja em chamar a atenção para os erros dos outros através do medo. Devemos sempre lembrar que a ética dominante sabe lidar bem com as ações rebeldes e faz com que rapidamente elas soem ao público geral, imerso em um transe coletivo, absorva a situação como terrorismo ou vandalismo, sem jamais parar mais do que 30 seg para pensar em uma mensagem ou em um porquê.
Muito pelo contrário, creio que a saída encontre-se na resistência individual, na conjunção de esforços individuais. Se queremos mudança, e lembre-se, somos poucos, devemos construí-la. Para construí-la, o primeiro passo é rejeitarmos os modelos. Não se pode construir nada verdadeiramente novo a partir de premissas velhas. Assim, o começo, para mim, encontra-se na busca individual por libertação e o cerne da libertação encontra-se no conhecimento e na maneira como o recebemos, o trabalhamos e o repassamos.
Os hackers chamariam a isto detinker, os samurais chamariam de budo (ou caminho do samurai), C. G. Jung chamaria de individuação e a sociedade em geral chamaria de autodidata, todos conceitos irmãos para a idéia latente de busca individual de superação e aprimoramento. Entendo que esta idéia se transmite melhor pela expressão “ética da resistência“, do que por qualquer das anteriores. Não acredito na revolução coletiva, porque não acredito que seria possível, nem correto, convencer, doutrinar, catequizar outras pessoas que são indiferentes a aderir ao ideário emancipatório esquerdista. A revolução para mim parece ser somente individual, sendo coletiva apenas quando sua ética de resistência se transmite e se transforma por si mesma através de novos indivíduos batalhando suas próprias revoluções, seu próprio aprimoramento, sua própria liberdade.
É difícil e angustiante tentar acreditar em mudança em nossos dias, mas acho que não existe nada mais mórbido do que o simples conformismo. Nesse sentido o budo nos traz uma grande lição: o budo não é a vitória ou a conquista do samurai, é o caminho. O objetivo de um samurai não é vencer, mas caminhar. Como já bem ilustrou M. Kundera na primeira página de Nesnesitelná lehkost bytí (A Insustentável Leveza do Ser), não se pode garantir que um seja melhor do que outro, não se pode garantir a conquista de um objetivo final, mas pode-se garantir que o caminho seja bem trilhado.