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Archive for Fevereiro, 2009

[lenny]

Dom, 15 Fev 2009, 45 Andre Deixe um comentário

O Debian GNU/Linux, após de 22 meses de desenvolvimento, lançou ontem (14.01.2009) sua nova versão estável apelidada de Lenny (5.0). As instruções para download, atualização, eventuais problemas e tudo o mais podem ser encontradas aqui.

A nova versão inclui o GNOME 2.22.2 como desktop padrão, mas também pode ser usada com o KDE 3.5.10, XFCE 4.4.2 ou LXDE 0.3.2.1. Um detalhe: diferente do que era padrão até o Etch (4.0), o Lenny agora dividiu os CDs de instalação para cada um dos gerentes de desktop. Assim, a não ser que você faça o download do Blueray ou dos DVDs – os quais já possuem os quatro ambientes em uma mesma mídia -, será preciso atentar para qual o ambiente desktop desejado logo no momento do download.

Uma opção é baixar a versão netinst (que é uma versão mínima do sistema) e instalar o ambiente desktop a partir da linha de comando depois. Também é possível baixar o sistema padrão e depois usar o apt para baixar outro(s) ambiente.

Aconselha-se a leitura das notas de lançamento antes de realizar a atualização do sistema. Contudo, para quem aceita riscos e tem pouca paciência, pode-se migrar do Etch para o Lenny editando o arquivo /etc/apt/sources.list alterando as ocorrências “etch” para “lenny”; em seguida informena linha de comando apt-get update e depois apt-get dist-upgrade.

Digno de nota é o fato de que a versão foi dedicada a Thiemo Seufer, um ex-desenvolvedor do Debian que faleceu no dia 26 de dezembro passado em um acidente de carro.

[idiotia coletiva]

Sex, 13 Fev 2009, 43 Andre Deixe um comentário

Desde que abri minha primeira conta corrente em um banco, venho acompanhando com alguma (cambiante) freqüência a bolsa de valores. No início, meu interesse pelo mercado restringia-se somente à remota possibilidade de que eu um dia conseguisse “aprender a investir” ou desenvolvesse alguma espécie de “intuição” que me permitisse criar fortuna em cima desse mágico mercado.

Nos últimos tempos, contudo, minha ótica sobre o mercado tem se alterado. Venho cada vez mais me maravilhando com as possibilidades de estudar o comportamento de massa através das oscilações no mercado.

A apresentação econômica do mercado a que somos normalmente expostos trata as oscilações de preços do papéis sob o prisma dos “pequenos” acontecimentos (ou fatos relevantes) quotidianos que afetam a desejabilidade de dada ação. Assim é que a descoberta da bacia de petróleo na camada pré-sal, a fusão de dois bancos, a colisão de dois aviões são meios capazes de fazer os preços de determinados papéis dispararem ou despencarem. Por conta disto, os investidores (no sentido mais amplo do termo) preocupam-se sempre com a qualidade das informações. Um bom investidor é aquele que compreende a mecânica do mercado, está sempre informado e sabe pescar, na avalancha de informações que é a sociedade atual, aquele dado mais relevante que será decisivo para a elevação ou queda nos preços. Sob este prisma, o titã dos investimentos é o insider trading.

Uma segunda ótica é a matemática. Alguns acreditam que os investimentos no mercado podem ser realizados com base em raciocínios meramente formais, sem atenção a quaisquer informações que não a variação própria das cotações. Note-se que esta forma de pensar na exclui a primeira pela simples razão de que não pretende explicar o que faz os preços se alterarem, mas partindo da premissa de que se alteram ao longo do tempo, supõem ser possível, pelo uso de instrumentos da matemática, calcular a probabilidade de haver elevação ou queda. A lógica é que, conhecendo as probabilidades, não se acertará sempre, mas se acertará um maior número de vezes do que se errará. Desta forma, ao longo do tempo a soma nos ganhos excederá em muito a soma das perdas. Em uma hipótese mítica, o filme Pi de Darren Aronofsky conta a história de um homem que procura – até os limites da sanidade – encontrar um número que serve de chave aos padrões da natureza, incluindo a própria oscilação da bolsa.

A terceira vertente (não sei bem se é apropriado chamar de vertente, já que nunca conheci quem abordasse o problema desta forma, mas também nunca fiz qualquer pesquisa sobre o assunto) seria a a da psicologia de grupo ou comportamento de massa. De certa maneira esta abordagem explica o porquê a análise matemática é válida ao mesmo tempo em que fornece um crivo para saber quais (ou talvez quando certas) informações são relevantes. Não apenas, mas ela torna coerentes alguns fenômenos limites que de certa maneira invalidam a análise econômica da informação.

Friedrich Hayek tornou-se mundialmente conhecido por seu artigo “The Use of Knowledge” no qual defende a importância econômica do livre mercado e o preço como forma de captar o conhecimento coletivo, que seria muito mais preciso ou adequado do que o conhecimento individualmente detido. Segundo sua ótica o conhecimento coletivo obtido através do preço seria de maior precisão mesmo quando comparado com a melhor informação individualmente detida. Em parte isto explica porque os indivíduos que tentam antecipar o mercado em geral perdem feio. Porém não explica Warren Buffett, não explica o Lehman Brothers, nem a Black Tuesday. Se a informação obtida no livre mercado através do preço é assim tão ótima, como é possível que o mercado só perceba uma crise quando ela já aconteceu, apesar de historicamente ser possível colher prenúncios da crise anos antes?

Bem, o comportamento de manada está aí para isso.

O mercado é feito de investidores, os quais são pessoas, que por sua vez são animais, e todas estas figuras se comportam como os búfalos do Lion King ou os hooligans. A sociedade ocidental contemporânea é alicerçada na fé em um homem racional. Segundo esta utopia, os agentes no mercado utilizam as informações que possuem como critérios para uma decisão econômica racional. S. Freud, e observe-se que seu maior opositor  G. Jung concordou com ele, já deu claros indícios de que o homem normal (ou normalizado) tem muito pouco de racional e guarda no seu íntimo uma grande semelhança com o neurótico, com o compulsivo, com a mulher histérica, com o masturbador e toda esta miríade taxinômica da psicologia. O mais irônico é que estas análises que não foram inventadas para explicar o mercado, mas para tratar dos de comportamento desviante, de fato o explicam melhor do que aquelas que o tomaram como objeto de estudo.

A atual crise econômica é um prato cheio para uma reflexão sobre o comportamento delirante das coletividades (o que não é senão o resultado exponencializado da soma das idiotias individuais) e um trampolim para um niilismo extremado sobre a capacidade humana de um comportamento ético e conseqüente apatia política no que pertine as relações de poder. Por que ocorrem bolhas especulativas? Por que as bolsas quebram? Por que se queimavam hereges na Idade Média? Por que o nazismo foi possível? Por que a escravidão aconteceu? Por que se tolera que Israel realize genocídios na faixa de gaza? Por que as pessoas pagam royalties e causam déficits milionários na balança comercial de seus países para usar um software ruim, que as priva do potencial de seus computadores se podem de graça adquirir um outro melhor sem os defeitos do primeiro?

Herd behaviour. Uma pessoa grita e a multidão entra em transe. Fofoca. Imitação. Insegurança. Os indivíduos temem o grupo então buscam copiar os demais. Se estão todos comprando, vou comprar também. Se estão todos vendendo vou vender também. Se todos acham  ridículo que dois homens tenham um relacionamento sexual, então vou achar ridículo também (quer seja por meio de piadinhas que escondem meu desejo de me comportar assim, quer seja assumindo meu desejo por meio de uma persona ridícula, com vozes, roupas, caras e jeitos destoantes).

Por que Warren Buffett é possível? (Além do fato de que quem possui dinheiro pode manipular as altas e baixas, bem como comprar informações privilegiadas). Existe não porque é possível manipular a loucura do grupo. Existe porque a manada não sabe, nem quer saber, para onde esta indo. A segurança da manada está na própria manada, ela confia no fato de que se a manada está indo para o norte é porque o norte é melhor e assim acelera o passo para ir para o norte. Ciclo vicioso. O mesmo se aplica à crise. Óh a crise, a crise, a crise. Quanto mais se fala, mais se fala. Quanto mais desespero, mais desespero. Quanto mais cortes, mais cortes. Quanto mais prejuízo, mais prejuízo. Até que um Visconde de Mauá apareça e diga: opa, perae, o mundo continua andando, as fábricas continuam com o mesmo potencial de produção, a terra anda dá frutos, os rios ainda dão água, esta não é a primeira, nem a última crise, vou comprar. E la vai a manada atrás, atrasada, igualmente desorientada, igualmente crédula em si mesma e igualmente fadada a uma nova crise.

Tudo tão novo, mas sempre tão igual a tudo o que sempre foi. Será que não há realmente nada de novo debaixo do sol? A massa do universo só pode de fato ser sempre a mesma, reagrupada, mas sempre a mesma…