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[o fruto proibido]

Sáb, 17 Jan 2009, 16 Andre Deixe um comentário

Um dos maiores truísmos da história da humanidade é dizer que todas as coisas possuem concomitantemente vantagens e desvantagens (ou que elas não são dotadas de qualidades, mas que somos nós que inventamos e atribuímos discurso àquilo que é essencialmente vazio de significado). Esta idéia encontra-se por detrás de diversas ilustrações como o yin e o yang ou o fruto da árvore proibida. Não obstante, parece incontornável a propensão humana a ignorar a permanência e difusão desta simples, porém crucial ilustração.

A nossa dieta define o que somos. Aquilo que consumimos também nos transforma. Não existem atalhos, dádivas ou posse sem sacrifícios.

Também já se vê emperrada a tecla do consumismo. Sociedade do consumo. Direitos do consumidor. Os primeiros a criticar a frivolidade do consumismo que foi instaurado nas sociedades contemporâneas já não servem mais nem para ração de larva. Tudo indica, aliás, que quando nós com eles estivermos ceando ainda haverá aqueles que entoem o mesmo canto, com o mesmo gosto salgado na boca.

Ainda assim, digo-lhe outra vez: o fruto proibido tem um cheiro suave e um sabor adstringente.

Miyamoto Musashi, em seu livro Go Rin no Sho (ou Livro dos Cinco Anéis), ao tratar dos princípios que devem nortear o caminho do guerreiro, diz que é preciso “distinguir entre o ganho e a perda nas questões mundanas“. O modo como encaramos os objetos diz muito sobre quem somos, mas também revela a inafastável carência de sentido do objeto. Esta consciência, todavia, não necessariamente conduz à melancolia e inação. Pode também significar a liberdade para nos desviarmos da assimilação impensada dos valores regurgitados por outros.

Em nossa sociedade o principal discriminador entre pessoas não é mais a genitália que possuem, a melanina que lhes colore a pele, uma casta, clã ou família ao qual pertencem, mas aquilo que consomem. O que se come, bebe, veste, calça, ouve, freqüenta e usa, mais do que matar a fome, saciar a sede ou proteger do clima, confere uma relação de pertença, denota poder. Exibe-se o tamanho do falo pela maior ou menor raridade (ou novidade) do que se consome. E para que alguns poucos rasputins possam andar pelados é necessário que todos acreditem que existe algo chamado felicidade e que o único meio de conquistá-la é comprando-a. Somente assim todo o excedente produtivo da sociedade pode ser bem drenado para irrigar as veias das vergas supracitadas.

Sussurra-se (na verdade está mais para uma ladainha gritada, a TV que não pode ser desligada de Winston Smith): se você quer isto, basta consumir aquilo. E não se trata de uma simples inverdade, justamente pela natureza multifacetada ou oca de todas as coisas. De fato, consumindo aquilo se consegue um pouco disto, porém também se perde algo e aqui está o engodo. O fruto não é proibido, porém o atalho para alcançá-lo oculta uma prisão. Consegue-se o que se queria, mas, lembre-se não existem dádivas, e o pedágio pelo uso do atalho é caríssimo.

Os pobres ao tentarem incorporar os valores dos ricos e seu estilo de vida sacrificam sua existência em prol de migalhas ao mesmo tempo em que perpetuam e fortalecem a dominação a que estes lhes submetem. A compra a crédito é o exemplo mais claro disto. Os pobres conseguem um atalho para comer como ricos, mas este atalho é de mão única e o pedágio lhes rouba quase tudo. O Brasil ao importar os costumes do norte sacrifica quase toda a sua população e aprofunda sua condição de dependente. Os jovens para consumirem como velhos, sacrificam sua criatividade, inteligência, tempo e libido – todos estes atributos juventude que não poderão ser fruídos na velhice.

Semelhantemente, de mãos dadas com toda pequena facilidade, todo pequeno comodismo, caminha um sacrifício. Por detrás do Google, está sua privacidade; por detrás da Microsoft, a sua liberdade; da Apple, o seu conhecimento; dos direitos de propriedade intelectual, o déficit na balança comercial e o intransponível abismo potencial tecnológico que separa a periferia do centro.

Os motes da civilização atual são a harmonia, a integração e a cooperação. A arte hoje serve de camuflagem para a realidade de guerra quotidiana – e, ironicamente, ao invés de tentar enxergar através do disfarce, nós o desejamos, financiamos. Guerra. Fragilizou-se a capacidade de auto-determinação do ser humano a tal ponto que isto soa rude ou antiquado. Guerra. Parece um meio descuidado de exercício de poder. Porém, se se pretende romper com os grilhões do gozo fácil, porém fraco, de um Iphone 3G, é preciso rejeitar os favores, os simplismos, os confortos, é preciso deles não depender, estar ciente daquilo que se perde ao ejacular com o membro alheio.