Qual a importância da ideologia?
Há alguns dias, a Free Software Foundation (FSF) publicou um artigo a respeito do iPhone da Apple. O artigo discorre longamente a respeito da mesma ideologia que sustentou a própria fundação, o GNU/Linux e o copyleft. Para quem já é familiarizado às idéias de Richard Stallman, nada de novo por aqui.
Para alguns, a ideologia é fio condutor da formação da personalidade, da conduta prática e da realização do indivíduo. Todavia, impossível não perceber que o conjunto destes indivíduos é extremamente reduzido dentro da sociedade e que esta condição, antes de ser temporária ou provisória, ao longo da História tem mostrado uma incômoda permanência.
Entretanto, desde a modernidade os indivíduos que se identificam e se realizam através de uma ideologia de contestação sempre compuseram grupos reduzidos que tentaram a árduas penas implantar, disseminar, reproduzir, hegemonizar sua própria visão de mundo.
Parece, contudo, que esta tentativa de constituição da sociedade de forma previamente elaborada, estruturada, racionalmente idealizada por intermédio de discursos tem sempre mostrado-se frustrada e frustrante. A tentativa de tornar hegemônica a cultura dissidente parece sempre bater de frente com uma resistência superior, não racionalmente, ideologicamente, culturalmente ou racionalmente, mas faticamente.
Em geral isto parece ser uma decorrência clara da falta de percepção dos dissidentes de sua própria condição.
Os dissidentes são minoria não por acaso. Eles são e serão sempre minorias, pois desde logo contestaram paradigmas que aos outros parecem inevitáveis. Não fosse assim, não haveria dissidência, mas mera discrepância. Destarte, sua cisão, parece, estará sempre fadada ao insucesso quando tentar sobrepor-se ao status quo.
Antes de pensar, contudo, em legitimar o status quo, a ele render-se ou em construir outra estratégia para atacá-lo, parece antes necessário pensar sobre a necessidade/inexorabilidade de cada uma dessas inferências. Será que vale o ditado do “se não pode vencê-los, junte-se a eles”? Ou será que vale “morrer lutando”? Antes de pensar nestas proposições parece ser mais imediato pensar se quaisquer destas condutas são realmente necessárias.
Concretizando, atualmente o movimento do software livre cresceu a uma proeminência suficientemente visível para que pessoas como eu (cidadão de classe baixa no terceiro mundo, com formação em ciências humanas) adiram à ideologia e façam uso de seus frutos. Porém, percebe-se facilmente que esta proeza fez com que aquilo que antes era visto como artigo de distinção de um subgrupo de geeks, hoje é tido como um concorrente menor de alternativas proprietárias. Sente-se uma angústia na comunidade em provar-se melhor do que as alternativas proprietárias ou ver-se reconhecido como um concorrente destes. Trava-se uma verdadeira batalha de infinitas frentes de ataque, estrutura e defesa do software livre.
Não obstante a nossa verdade a respeito do desenvolvimento livre e do acesso ao conhecimento, a realidade é que para a grande maioria estas questões não importam e nem nunca vão importar. Não parece plausível que pessoas que não se importam com o conhecimento em software, com o monopólio tecnológico e cultural de algumas empresas ou com a exclusão criada pela forma de exploração econômica destes “mercados” mudem algum dia seus conceitos ou atentem à ideologia.
Este problema é incontornável. A nossa verdade pessoal ou comunitária jamais alçará o status de verdade universal simplesmente porque esta não existe. A verdade, a ideologia e os valores sempre serão relativos, parciais e condicionais. É pura fantasia crer que a reiteração doutrinária de um discurso vá transformar a mentalidade de um grupo considerável de pessoas. É uma tarefa fadada ao insucesso tentar provar a superioridade teórica do movimento do software livre. O grosso das pessoas sempre permanecerá arredio e se importará mais com o status social de uma marca, com o benefício individual de um consumo, com o simbolismo fálico de alguns produtos acima das implicações éticas e sociais de suas “escolhas” (muitas aspas aqui).
Assim sendo, parece uma economia muito melhor das energias e uma estratégia mais refinada ao movimento, garantir que as idéias conservem-se fortes no espírito dos poucos desenvolvedores e fautores do movimento, concentrando as forças em criar condições à dissidência, antes de buscar derrubar a hegemonia.
A defesa ideológica parece ser necessária apenas no limite do nosso reconhecimento de grupo. Pouco importa se um milhão de indivíduos vai continuar se realizando através de símbolos ocos de consumo, desde que aqueles que podem e querem se beneficiar do compartilhamento de informações tenham a possibilidade de fazê-lo e saibam disso. Não importa derrubar as M$s, Apples e Warners da vida. Importa apenas garantir que a hegemonia destes grupos não inviabilize o comportamento, a conduta desviante. Importa impedir que suas estratégias nos limitem a construção de nossos interesses através dos famosos hardwares fachados ou lobbys legislativos de controle da comunicação na rede. O que está além disto é perfumaria. Não precisamos concorrer, precisamos apenas poder existir.









Nem lutar contra, nem se aliar aos inimigos. Acredito em bons exemplos. Fazer a sua parte, educar, informar e principalmente, oferecer condições e possibilidades pra mudança.
( Lido e comentado em local apropriado??)
Yep. Exatamente. Acho que existe um mau hábito, principalmente nas pessoas das humanas, em querer confrontar idéias, realizar verdadeiras batalhas argumentativas que, no fim, provavelmente não irão mudar muita coisa. Acho que importa mais praticar seu discurso e fazê-lo acontecer.
(Acho que estou te devendo um gentileza, né?)