O minimalismo é uma corrente ética que se pauta em princípios e regras de simplicidade como sendo a melhor forma de enfrentar os problemas da existência. Quando aplicada à computação de dados, à informação digital, esta ética pode se traduzir das mais variadas formas, entre elas, objetividade no desenho dos softwares, simplicidade nos desings, e rejeição a formas por demais rebuscadas e chamativas de interfaces que consomem muito potencial das máquinas sem trazer grande retorno na quantidade ou qualidade das tarefas que se pode realizar.
Esta ética do mínimo tem relação direta com a objetividade da elaboração de novos softwares, sempre pensando em melhorar o desempenho das máquinas e proporcionar a melhor produtividade, não deixando que potencial de processamento seja usado em trechos de códigos que não acrescentam nesta produtividade.
Obviamente, a ética do mínimo busca ir de encontro com a Moore’s Law, e evitando reafirmar a Wirth’s Law, o que tem uma importância prática tremenda para o quotidiano das empresas e cidadãos que fazem uso de computadores menos potentes, principalmente aqueles de menor potencial aquisitivo (grande parte do terceiro mundo).
Nesse sentido, é curioso perceber como a preocupação de alguns desenvolvedores de software ultimamente tem sido voltada a projetos chamativos aos olhos, mas que não demonstram a que vieram.
Essa semana, Bill Gates e Steve Ballmer mostraram o grande chamariz do Windows 7, futuro substituto do fracassado Windows Vista com data de lançamento prevista para 2010, a multi-touch screen. Segundo a dupla de bilionários, esta tela bem para substituir mouse e teclado e revolucionar o modo de interação homem-máquina.
Entretanto, não sei se isto é falta de visão, mas não me parece tão óbvia a evolução na interação que esta tela nos traz. Quando o mouse surgiu para os empresários da Xerox, o projeto foi refutado como ridículo, “quem iria mexer em computadores com auxílio de um rato com dois botões?” Esta rejeição, como o tempo provou, foi claramente falta de visão dos empresários que debocharam do projeto desenvolvido por seus próprios funcionários. Ainda assim, não percebo qual o acréscimo de desempenho/funcionalidade/interação dessa tela.
Tudo o que demonstraram no vídeo, com exceção talvez do piano, pode ser feito com os mouses de hoje sem a necessidade de comprar novo hardware e usar um sistema que certamente será muito mais pesado do que os atuais. Porém, sinceramente, quem quer tocar piano na tela do seu computador?
Não quero dizer que não seja divertido. A idéia de poder brincar com os dedos na tela mexendo nos objetos e tocando instrumentos certamente diverte. Assim como a idéia de poder rodar seu desktop em um cubo tridimencional também é muito boa. Porém, qual a utilidade destas inovações? A que custo?
O custo é óbvio: hardware/produtividade. Se você quer ter a chance de brincar com esses gadgets você deve estar preparado para comprar computadores de ponta, o que certamente significa um investimento de provavelmente cinco vezes o valor de um computador padrão, com menos brilho, mas que irá produzir tanto quanto.
Note-se que este problema já há algum tempo deixou de ser específico da Micro$oft. As distros do GNU/Linux que usam o KDE e o GNOME já sofrem dos mesmos problemas, ainda quando não fazem uso de softwares ainda mais pesados como o Compiz-Fusion ou o Plasma. A diferença, contudo, é que o GNU/Linux é remodelável. Cada um pode adaptar sua distro conforme suas próprias necessidades e, até mesmo em máquinas já um tanto quanto antigas, rodas versões de última geração do sistema livre.
Com um pouco de conhecimento é possível rodas as últimas versões do kernel Linux com um grupo de utilitários GNU que talvez não sejam as pérolas do olhos de qualquer um, mas que irão realizar todas as necessidades do usuário, sem muita purpurina.
O Windows Vista tem sido até agora um fiasco, críticas não lhe faltam. É um sistema pesado que agrega pouca funcionalidade imediata ao usuário. Para a decepção de alguns, parece que a estratégia da Micro$oft para o Windows 7 não é a de rever o seu modelo de desenvolvimento e priorizar a compatibilidade, mas sim tentar cativar, na próxima geração, os consumidores através dos olhos. É uma estratégia tão boa quanto velha.
As últimas distros do GNU/Linux parecem estar seguindo um caminho parecido. Fica, porém, a questão: não seria mais adequado à ideologia do software livre se pautar por um desenvolvimento de software diferenciado, pautando-se em alcançar os digitalmente excluídos, ao invés de tentar competir com o Windows e o OS/X em uma guerra incessante por eyecandys cada vez mais pesados?








