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[seriedade]

O mundo do direito entrou em descompasso com a realidade há alguns anos, se é que em algum momento ele já esteve. É muito natural que o direito e tudo o que o cerca tenha a aparência de atrasado, ainda mais em um mundo cuja premissa é a mudança, como o atual. O direito é nada mais do que a consolidação daquilo que foi prática reiterada dentro da sociedade, tudo o que a maior parte dos indivíduos faz e aceita ao longo de um espaço-tempo razoavelmente longos torna-se, inexoravelmente, norma. Se esta norma adentrará o que se conhece por direito é uma questão à parte. Existem inúmeras teorias que tentam dar conta da justificação do direito, mas não se pode fugir a este aspecto do direito sem fugir da realidade.

Tem crescido, entretanto, o estigma de anacronismo que recai sobre o que é jurídico, aqui em sentido amplo. Isto porque, em um mundo globalizado e integrado, com meios de comunicação que praticamente aboliram fronteiras e distâncias, com mais de 6 bilhões de habitantes, o multiculturalismo, o pluralismo, as subculturas e as contra-culturas ganham força. As relações interindividuais deixam de ser pautadas pela etnia, secto, credo ou região e passam a ser cada vez mais centradas nas idéias (sobre esse assunto existe um livro interessante de Pierre Lévy). Conseqüentemente, torna-se delicado pensar a questão da norma. A norma geral perde seu caráter geral, já que poucas são as normas aplicáveis ao conjunto global.

Como o direito deve encarar esta realidade é assunto para um outro post. O que eu quero abordar aqui tem a ver apenas com uma norma jurídica em especial, a seriedade.

Os juristas primam pela seriedade de forma incomparável em qualquer outro agrupamento que se possa elencar. O símbolo maior de sua seriedade está em seu uniforme: terno e gravata. Não se pode ser advogado sem usar o uniforme do time. Note-se, não é qualquer uniforme (senão parece segurança de balada) tem que usar gravatas e ternos caros. A seriedade chega a tal ponto que está consagrada em lei, o Estatuto da OAB prevê em seu artigo 58, inciso XI, que o Conselho Seccional tem competência para criar normas regulando o traje do advogado no exercício da profissão. Não somente, mas também o edital para o último exame da OAB fazia expressa menção à escolha de trajes adequados para o exercício profissional da advocacia.

Mais do que isso, advogados não podem usar nome fantasia para suas empresas, não podem ter logo, nem fazer publicidade, isto tiraria a seriedade da profissão. Por isso você não conhece escritórios de advocacia e se conhece não faz idéias se são bons (todos parecem ser) e sempre tem o nome de Fulano, Sicrano e Beltrano Advogados, nunca Skype, Google ou 3M.

Mas será que as demais profissões são menos sérias?

O site da BBC publicou hoje uma matéria quase publicitária sobre a filial do Google em Zurique. Logo no começo da matéria encontra-se um vídeo que mostra um dos funcionários da empresa mostrando as dependências e facilidades do local. Como bem se vê no vídeo o funcionário veste camiseta, calça jeans e tênis, anda de tobogã, joga vídeo game, sinuca, dorme em puffs e por aí vai. O ambiente é todo colorido. Recentemente a Veja publicou também uma matéria falando sobre a Pixar, que segue os mesmos moldes de organização do ambiente de trabalho. Não são apenas elas, contudo, aqui no Brasil, muitas empresas já adotam esquemas parecidos, primando pelo conforto e produtividade, mas aos advogados ainda arrepiam os pelos do pescoço ver alguém sem gravata.

Qual a diferença entre as profissões? Basicamente uma: competência. Ser e parecer ser. Para empresas que trabalham em mercados amplos e necessitam de escala para manterem as portas abertas, a qualidade dos seus serviços e a competência dos funcionários é fator chave. Para os adevogados, entretanto, o que importa é ser sério, para, assim, parecer competente e a gravata faz um belo trabalho. Um adevogado não precisa ser eficiente nem competente. Toda a justiça é ineficiente, todos os juristas são, não há como o cliente aferir diretamente a qualidade do trabalho de seu adevogado, e este não precisa escala para garantir sua renda. Assim, o que importa é ter um ar de autoridade, é parecer seguro do que está dizendo, é falar palavras jurídicas que limitam a compreensão do outro e lhe fazem parecer culto.

Vista seu terno e gravata, pasta na mão, ande a passos firmes e com ar de autoridade. Pronto, eis um adevogado.

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  1. Qua, 9 Abr 2008, 99 às 17:59 | #1
  2. Seg, 12 Mai 2008, 132 às 21:52 | #2