Não há suporte oficial da acoab, certisign, OAB São Paulo ou TJSP. Não obstante, um dos modelos de token criptográficos comercializados pela ACOAB é o GD Burti, fabricado pela Giesecke & Devrient sob o nome StarSign Crypto USB Token, que afirma em seu catálogo oferecer suporte para GNU/Linux. Além disso, o software utilizado para reconhecer o cartão criptográfico é produzido pela empresa AET Europe, que também alega suporte para GNU/Linux. Nenhuma das duas empresas, contudo, fornece a documentação necessária.

Requisitos:
Para usar o token modelo GD Burti no Debian usando o Iceweasel é preciso instalar as seguintes bibliotecas:

Para o token
libpcsclite
libccid
pcscd

Para o Safesign
libjbig0
libtiff4
fontconfig-config
libfontconfig1
libwxbase2.8
libwxgtk2.8

Todas estão disponíveis nos repositórios oficiais do debian e já em versões compatíveis.


# apt-get update
# apt-get install $lib1 $lib2 $lib3 ...

Third party:

Além destas bibliotecas, é preciso instalar o software SafeSign Identity Client da empresa AET Europe. Este software, contudo, não se encontra disponível no site da empresa e só consegui encontrá-lo no site de uma empresa brasileira chamada Valid Certificadora. Troque o “amd64″ por “i386″ se o seu sistema for 32 bits.


# uname -a
# wget http://www.validcertificadora.com.br/upload/downloads/linux64bits/safesignidentityclient_3.0.77-Ubuntu_amd64.deb
# dpkg -i /path/to/safesignidentityclient_3.0.77-Ubuntu_amd64.deb

Depois de instalar, você já pode espetar o token usb na máquina e conferir se está tudo funcionando usando o SafeSign. No meu computador a instalação automática criou uma entrada no menu -> Sistema -> Safe Sign. Também é possível iniciar o programa na linha de comando digitando o comando:


$ tokenadmin &

Embora o seu certificado já esteja instalado e acessível ao sistema, é preciso configurar os aplicativos para reconhecê-lo. O SafeSign possui uma opção bizarra em seu menu de navegação chamada “Integration”, com a subaba “Install on Firefox”. Aqui não funcionou esta suposta instalação automática. Felizmente dá pra fazer na unha:

Para usar no Iceweasel:

Abrir o menu Editar -> Preferências -> Avançado -> Certificados -> Dispositivos de Segurança. Neste menu clicar em carregar.

O programa abrirá uma pequena janela na qual se deve informar o nome do dispositivo, criei com o nome “SafeSign”, mas pode ser qualquer outro, e o caminho para o módulo de segurança “/usr/lib/libaetpkss.so.3″. O navegadoror deve então reconhecer o dispositivo, porém você estará deslogado. Faça o login, informe sua senha PIN e voilá, seu certificado está funcionado.

Para conferir, entre no site da Receita Federal e clique no ícone certificado digital no canto superior direito da página. O site solicitará que você se identifique usando o seu token.

Nível total desrespeito com padrões públicos: fazer funcionar no site do TJSP.

Embora seu certificado digital esteja operante segundo o SafeSign e reconhecido tanto pelo Iceweasel quando pela Receita Federal, o Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo parece ter ainda problemas em fazê-lo. O problema, como não poderia deixar de ser, é a máquina virtual java. Usando o OpenJDK e o plugin IcedTea não foi possível fazer com que o site reconhecesse o certificado. O site roda os scripts necessários, não informa erros, mas também não identifica que há um certificado digital disponível na máquina.

Para fazer o certificado digital funcionar corretamente no site do Tribunal de Justiça, é bizarramente necessário ter máquina virtual java da Oracle instalada e fazer uso do plugin proprietário que a acompanha. Fica em aberto a questão do porquê o Tribunal tem tanta aversão ao software livre e aos padrões públicos. Que função é esta que não se encontra disponível no OpenJDK e torna imperativo o uso de uma máquina java proprietária?

Para instalar a máquina virtual da oracle, faça o download no site oficial, descompacte o arquivo na pasta /usr/lib/jvm/, configure-a como padrão usando o update-alternatives e instale o plugin na pasta de configuração do mozilla. Antes de tudo, porém, li comentários de que há problema de compatibilidade se o IcedTea tiver sido instalado, então, para garantir que vai funcionar, desinstale este plugin.


# apt-get purge icedtea-7-plugin
# tar xzvf jre-{$java-version}-linux-x64.tar.gz -C /usr/lib/jvm/
# update-alternatives --install "/usr/bin/java" "java" "/usr/lib/jvm/jre{$java-version}/bin/java" 1
# update-alternatives --set java /usr/lib/jvm/jre{$java-version}/bin/java

Para conferir o resultado, execute estes comandos:


# java -version
# update-alternatives --config java

Para instalar o plugin no iceweasel, criar um link na pasta ~./.mozilla/plugins:


$ ln -s /usr/lib/jvm/jre{$java-version}/lib/amd64/libnpjp2.so ./.mozilla/plugins/

Pronto, agora você já pode reiniciar o icewasel e efetuar o login no esaj usando o seu certificado digital. Ufa.

Testado em:
Linux 3.12-1-amd64 #1 SMP Debian 3.12.9-1 (2014-02-01)
Java(TM) SE Runtime Environment (build 1.7.0_51-b13)

Fontes:

http://www.vivaolinux.com.br/dica/Configurando-cartao-e-CNPJ-no-Firefox

http://alexander.holbreich.org/2011/11/java-7-on-debian/

http://www.validcertificadora.com.br/SafeSignLinux

Este tutorial tenta reunir algumas informações esparsas sobre como configurar seu Wii para rodar jogos a partir de um pendrive. Se você fizer uma busca rápida usando sua ferramenta de busca padrão, provavelmente encontrará uma miríade de tutoriais sobre este mesmo assunto, incluindo alguns vídeos no youtube. Cada tutorial, porém, mostra um caminho diferente, indica softwares distintos, muitos deles estão desatualizados, outros tantos são focados apenas no usuário Windows e praticamente todos eles deixam de fornecer qualquer perspectiva sobre o processo, de modo que, se algum passo do tutorial falha, você fica sem nenhuma dica sobre o que fazer. Dito isto, este tutorial tem por foco o usuário debian (talvez também seja útil para outras distros GNU/Linux, mas, para windows e mac, eu recomendo que você procure outro tutorial) e busca suprir algumas lacunas de outros tutoriais.

O Objetivo

Todo o procedimento adiante descrito tem como objetivo habilitar o Wii para rodar jogos armazenados em um disco externo ligado à porta usb 0 do seu Wii. Para tanto, é necessário fazer algumas modificações no sistema do Wii, bem como preparar uma partição do disco externo para o posterior armazenamento de jogos do Wii.

Um Alerta

Este tutorial detalha o procedimento de modificação do sistema do Wii para rodar jogos a partir de um pendrive. Não aborda, entretanto, o procedimento anterior de jailbreaking do Wii (procedimento que habilita o console para rodar códigos arbitrários). Pelo contrário, este tutorial assume que você já possui um Wii hackeado e com o Homebrew Channel instalado. Mais informações.

Hardwares necessários

Um Wii
Um disco externo (pendrive ou hd externo)
Um cartão sd micro de 1Gb

Softwares utilizados

No Wii: DOP-Mii, cIOS Installer, USBLoaderGX.
No pc Debian: gparted, wbfsmanager, Wii Backup Fusion.

Modificando seu Wii

O primeiro requisito para rodar os jogos a partir de um pendrive é modificar o sistema do seu Wii (chamado de IOS nos sites especializados) e instalar o software que fará a inicialização dos jogos (no caso, USBLoaderGX). Para tanto, instale os três softwares do Wii acima no cartão sd em que estão instalados os demais homebrew apps do seu Wii.

1. Instale o DOP-Mii. Faça o download do arquivo compactado disponível no site e descompacte-o na pasta raiz do sdcard, mantendo as estruturas das pastas. Isso significa que os arquivos do programa devem ser transferidos para a pasta “apps” do sdcard e que deve haver uma pasta config com um arquivo de configuração do programa. Voilá, primeiro software instalado.

2. Instale o cIOS Installer. Extraia os conteúdos do arquivo compactado diretamente na pasta “apps” do sdcard. Voilá, segundo software instalado.

3. Instale o USBLoaderGX. Procedimento idêntico ao usado para extrair os conteúdos do DOP-Mii na raiz do sdcard, mantendo a estrutura das pastas. Observação: este é o software que será responsável por carregar os jogos armazenados no seu disco externo. Há, porém, diversos outros softwares que realizam esta função, você não precisa usar necessariamente o USBLoaderGX. Não sei quais as vantagens de uns sobre os outros, se estiver insatisfeito, pesquise.

Com os softwares instalados:

4. Execute o DOP-Mii a partir da tela do Homebrew Channel (HBC). Na tela inicial, escolha no menu a instalação do IOS36, pressione “A” para confirmar a ação. Depois de feita a instalação, finalize o programa.

5. Execute o cIOS Installer a partir da tela do HBC. Na tela inicial, use o direcional para mudar a instalação IOS para IOS36. Na tela seguinte, use o direcional para alterar a WAD Install para Network Installation. Pressione “A” novamente e aguarde a execução do programa. Após, reinicialize o Wii.

Com isto, seu Wii já está modificado para rodar jogos a partir de um disco externo.

Criando uma partição wbfs no seu disco externo.

Para rodar os jogos no Wii, não basta mover os arquivos dos jogos para o disco, é necessário criar uma partição especializada (formatada no padrão de arquivos do Wii o wbfs). Alguns tutoriais  indicam que é possível rodar os jogos armazenados em uma partição fat32, ntfs ou mesmo ext2, mas eu não obtive sucesso usando o USBLoaderGX. Se você souber como fazê-lo, por favor, indique o procedimento nos comentários ou forneça um link com as instruções. Rodar os jogos em um sistema de arquivos como o fat32, por exemplo, evitaria toda a dor de cabeça de ficar convertendo formatos de arquivo, formatando e particionando discos e de usar softwares especializados para mover arquivos de um disco para o outro (algo frequente se você for utilizar um disco com pouco espaço de armazenamento), bastaria um gerente de arquivos comum.

Existem diversos wbfs managers diferentes por aí, com diferentes recursos. Nos repositórios do Debian existe um chamado “qwbfsmanager“, mas ele possui poucos recursos e, quando o utilizei, não consegui formatar a partição desejada. Fique à vontade para escolher o software que lhe parece mais interessante.

O Wii Backup Fusion (wibafu) é opcional. Este programa na verdade é uma interface gráfica para um conjunto de comandos do shell chamado Wiimms ISO Tools (WIT), que deve ser instalado separadamente para que o wibafu funcione (para instalá-lo basta executar o script “install.sh”). Embora dispensável, foi apenas com este programa que obtive sucesso em mover jogos no formato .wbfs para uma partição wbfs. O wbfsmanager só consegue transferir imagens de disco no formato .iso. O grande inconveniente disso é que sem o wiibafu, será necessário armazenar os jogos no formato .iso, que consome muito mais espaço em disco do que o .wbfs. Ou, se os jogos estiverem já no formato wbfs, será necessário primeiro convertê-los para o formato .iso para só então movê-los para a partição wbfs (o que essencialmente significa que o arquivo será novamente convertido para wbfs). Se nenhuma destas duas alternativas soa plausível para você, o wibafu é indispensável. Ele também é capaz de mover imagens iso (transformando-as em wbfs), mas ele não é capaz de criar partições wbfs, único motivo pelo qual ele não torna dispensável o wbfsmanager. (Com o wit é possível criar partições, mas ainda não explorei os comandos, quem sabe em um futuro próximo).

Resumindo: é necessário particionar o seu disco externo para criar uma partição wbfs para armazenar os jogos. Esta partição pode ser a única do disco ou pode coexistir com outras destinadas a outros fins. O único requisito é que a partição wbfs seja a primeira (do contrário o USBLoaderGX não a reconhecerá). Após, basta mover os arquivos dos jogos usando um wbfsmanager à sua escolha. (Obs.: se você utilizar o wit, existe um recurso para montar esta partição usando o fuse, com isto supostamente seria possível usar ferramentas de manipulação de arquivos comuns do sistema para mover os jogos entre os discos. Ainda não testado. Se você obtiver sucesso, por favor, indique o procedimento).

6. Abra o gparted, escolha o disco apropriado (se estiver em dúvida informe o comando “fdisk -l” para exibir os discos disponíveis), remova as partições existentes e crie uma nova, sem formatação.

7. Feito isto, abra o wbfsmanager, escolha a partição sem formatação e vá em Ferramentas >> Inicializar partição wbfs.

Pronto, seu disco externo já está pronto para armazenar os jogos do Wii. Se seus jogos estiverem no formato .iso, basta abrir a pasta em que estão localizados os arquivos, selecionar a imagem e clicar em “Adicionar ISO”. Se, por outro lado, os jogos estiverem no formato .wbfs, será necessário usar o wibafu. Abrindo-o, logo na primeira aba “Arquivos”, clique em “Carregar” e escolha a pasta em que estão os arquivos .wbfs. A seguir clique em transferir wbfs. Quando esta operação terminar, você já poderá jogar seus jogos!

A mancha de sangue grudada no teto como se tivesse sido jogado um balão de sangue em sua direção. Pedaços de cérebro e crânio, fios de cabelo e uma bala metálica encrustada no cimento. Estalactites de plasma das quais já não escorre mais sangue algum. No chão, algumas tantas manchas de sangue e um revólver caído. Ao seu lado um corpo já em estágio inicial de putrefação sentado em um sofá, frente a uma TV. Na mesinha de centro, um papel amarrotado com as palavras: “Desculpem-me pela sujeira.”

- “Esse pelo menos foi educado.” Comentou o cabo Eáco.

- “É. Mas suicídio não é homicídio, não é nem mesmo crime. Não temos nada a investigar aqui.” Retrucou o sargento Dionísio.

- “Vou mandar a central avisar o IML para recolher o presunto.”

- “Quer tomar um café? Conheço uma padaria fina aqui na região. Ligamos para a central depois, o presunto não vai sair daqui.”

- “Fechou. Nada melhor do que um cafezinho no meio do expediente.”

- “Diga para a vizinha que o IML é um caos e sempre atrasa.”

- “Acho que não precisa, ela já voltou para o apartamento.”

- “Então vamos logo antes que esse cheiro podre estrague meu apetite.”

- “Vão precisar limpar isso com uma VAP.”

Eu já fui cristão, admito. Hoje é um pouco embaraçoso falar isso publicamente, mas o embaraço eu contorno com a felicidade de ter deixado de sê-lo. Pela alegria de poder dizer a todos que não sou mais cristão. Agora viria o “amem”. Hoje já é um pouco difícil lembrar dos trejeitos da comunidade. De qualquer forma eu te digo: ninguém dirá “amém” para você por ter deixado de ser cristão. Aliás, um “testemunho” desses, lá “de púlpito”, ia causar o maior escândalo na comunidade.

Faz sentido, é alguém dizendo que está feliz por não ser mais igual a você e com vergonha de ter sido. Soa ofensivo. É ofensivo. Tão ofensivo quanto esta cerimônia do testemunho sempre é para alguém. Hoje foi você. Domingo passado foram as mulheres que não cumprem o seu papel de esposas cristãs. Domingo retrasado foi sobre os adolescentes que se masturbam. No domingo próximo será sobre o “homem que desonra seu corpo”, esse grande pecado do sodomita. Os testemunhos não eram tantos assim e nunca sobre assuntos tão infamantes. Estes ficavam por conta das pregações e o bom pregador era aquele pregador fervoroso, que sabia apontar exatamente as nossas falhas e sabia nos dar a mão para seguir com Cristo. Até que se descobria que o pregador era pedófilo (sim isso não é privilégio dos coroinhas). Ou não se descobria. Tudo era conversado em portas fechadas para tentar abafar o assunto. O pastor removido às pressas para outro lugar, acionar a polícia aumentaria o escândalo, vamos simplesmente jogar uma pá de cal e dizer que foi trabalho de satanás.

Satanás não se viu em lugar nenhum até aqui, até o ponto em que aquele “horror mundano” aparece no seio da comunidade. Então surge, esplêndido por sua ausência, talvez uma brisa quente no verão. Não, satanás não está na igreja, por isso não o sentimos. Pois é isto. Satanás é imperceptível aos nossos sentidos, tanto na igreja quanto fora dela. Mas pense em Satanás, pense no diabo, pense quem é o diabo? Pense em algo que te faz sentir a presença dele e a necessidade de pedir perdão a deus. Provavelmente, neste exato momento, perdi todos os meus leitores. Já pensou como o diabo é algo que se sente sem sentir? Ele sempre vem pelos sentidos, pela escuta, as tentações do olhar, os prazeres da carne, etc. Tudo isso, dizem, é armadilha do diabo são tentações para desviar nosso olhar de Cristo.

Outra figura recorrente do cristianismo, Cristo é descrito na bíblia como um judeu nômade que não trabalhava e perambulava sempre pelas ruas da cidade com mais 12 outros desocupados, de vez em quando com putas e na maior parte das vezes tentando ajudar mendigos. Tá de vez em quando ele dava barraco em praça pública quebrava tudo, atrapalhava o trânsito e o comércio, mas no geral ele se mantinha low profile, andando em guetos e falando com uma massa de miseráveis de uma cidade integrante do Império Romano. Como a cidade não era São Paulo, o Governador não mandou prenderem Jesus pelo quebra-quebra. Enfim, Jesus. A bíblia conta muitas histórias sobre ele, mas ele mesmo nunca deixou nada escrito. Suas palavras são sempre trazidas por terceiros, mesmo considerando que ele poderia muito bem escrever, eis que segundo relatos ele era alfabetizado. Outra informação pouco crível. Mas como não tenho dados, vou deixar para vocês saber se ele sabia ler e escrever.

Mas por que será que deus, sabendo ler e escrever, perdeu a única chance de nos deixar um relato direto, sem intermediários, sem joão, sem moisés, de seu propósito para a nossa vida? Por que sempre por terceiros? Quem são esses terceiros que carregam a palavra de deus? Bom, tem o pastor pedófilo, tem o padre pedófilo, tem o papa nazista, tem o missionário americano, tem o jesuíta, tem os inquisidores, tem o concílio romano, veja-se: romano, que estabeleceu quais livros seriam da bíblia e quais não. E temos pessoas queimadas em fogueiras e rodas de tortura. Temos o genocídio dos indígenas, temos a escravidão dos negros. Temos a submissão das mulheres e crianças ao poder do homem. Você pode olhar para isso e lembrar do diabo que já apareceu lá em cima ou pode atribuir ao pecado do homem, mas isso não muda o fato de que a palavra de deus veio a vocês através da boca desses homens. Estes são os homens que insistiram em manter viva a palavra do senhor.

Existiram outros, mas as ovelhas são pastoreadas. E pastoreadas com orgulho. Têm a memória de um peixe, pois estão sempre ouvindo as mesmas histórias de diferentes bocas, para que nunca se esqueçam. Pois são estas histórias, de uma tribo de nômades que viveu na região do oriente médio há 3 mil anos, as histórias que detém a verdade sobre nossas vidas hoje, sendo pouco relevante falar sobre tudo o que aconteceu e acontece no mundo depois disso.

Pois bem, então falemos daquela tribo, falemos de seu deus e falemos de bíblia.

A bíblia é um texto curioso. Nela é retratado um deus supremo, absoluto, imutável, perfeito, onisciente, criador de todas as coisas. Ou não. Às vezes, e não são poucas, nós vemos que deus gosta mesmo é de sangue. Como com Caim e Abel, por exemplo. Caim fez aquele banquete de vegetais, agricultor que era, e ofereceu o produto de meses do seu trabalho em honra a deus. Deus achou tudo aquilo uma merda, absolutamente nada, se comparado ao bezerro esquartejado próximo ao Abel banhado em sangue até o pescoço. Aquilo sim é oferenda. Talvez por isso o sanguinário Davi, que matou o marido de uma mulher para tomar posse dela (veja bem, a mulher, aqui, é coisa) tenha sido dito o homem segundo o coração de deus. Afinal de contas, não é como se Davi tivesse proposto um duelo com armas iguais para a disputa da dama objetificada. Davi era um político com muita influência na cidade e apenas moveu uns pauzinhos lá de sua poltrona e garantiu uma morte sangrenta ao rival. O homem segundo o coração de deus.

Ora, mas deus é amor e sabe perdoar os pecados de seus filhos. Claro, nem sempre. Se você, por exemplo, não esquartejou um animal ou um ser humano, mas apenas trabalhou para produzir alimento para sua família, bom aí você será amaldiçoado por 70×7 gerações. Pessoas que ainda nem nasceram, nem foram concebidas vão pegar pelo seu terrível pecado de não ter esquartejado um animal. O aborto é uma abominação, mas a punição de bebês não nascidos é a justiça divina. Ou mesmo o infanticídio. Pois foi essa forma que deus escolheu para negociar com o faraó egípcio. Matou todos os primogênitos do país. Para passar um recadinho para o faraó. Sendo todo poderoso, qualquer roteirista barato sabe que o cidadão poderia ter simplesmente removido os judeus em segurança para um lugar afastado. Mas em toda a sua grande sabedoria, ele decidiu matar centenas de milhares de crianças, depois deixar as pessoas perdidas em um deserto por 40 anos e ainda matar seu porta-voz quando ele estava na porta da terra prometida. O roteiro aí fica mais parecido com Jogos Mortais, em que o serial killer vai levando suas vítimas por um caminho cada vez mais doloroso até que vem o golpe de misericórdia. Talvez seja essa a misericórdia divina.

Misericórdia que aparece no seu trato para com a esposa de Ló que resolvera dar uma espiada para trás (veja bem, estavam chovendo bolas de fogo do céu atrás dela, quem não olharia?) e foi instantaneamente transformada em uma estátua de sal ou com o próprio Ló que teve que simplesmente sair dali andando e fingir que tá tudo bem. Deus acabou de transformar minha mulher em sal porque ela olhou pra trás. Daqui a pouco vai me pedir para esquartejar meu filho em um altar ou fazer uma aposta com o diabo e nisso, deixar que ele mate toda a minha família, só pra testar meu amor. Afinal de contas depois ele pode me dar tudo de novo e melhor. Em vez dessa esposa merreca e desses filhos ramelentos, uns mais bonitos, fortes e inteligentes.

Daria para continuar por muito tempo, os banhos de sangue com um dedo de deus são frequentes na bíblia. Aliás, o povo escolhido de deus viu muito sangue em toda a sua história, assim como viram os cristãos. Mas o mais interessante é perceber que os “homens de deus” continuaram os mesmos sanguinolentos que em outras épocas foram ditos homens segundo o coração de deus.

Qual é o coração desse deus?

E de outro lado tem o povo. Povo de Judá, povo egípcio, povo de Israel, povo brasileiro. Não falo de Rute, não falo de Abraão, não falo de Jonas. Falo daqueles que são apenas isso no texto, povo. Aquelas pessoas escravizadas vez após vez, tanto lá como aqui, dessas pessoas mais miseráveis cujos nomes nunca aparecem senão como cifras. Cifras que foram marcadas nos judeus há bem pouco tempo. Este amontoado disforme de pessoas sem identidade, sem rosto, sem história. Eu, você, nós. Nós só aparecemos na história como alvo das punições divinas, submetidos a pragas, guerras, fome, estupros, escravidão.

Nós não temos voz nessa história, somos apenas um objeto cuja história nos é contada pelos “homens de deus”. Aqueles, que, tal como Davi, escrevem poesias enquanto mandam para a morte seus incômodos vivos. Ou tal como Salomão que foi sábio o bastante para ter quase mil mulheres. Ou como o bispo Macedo que ficou milionário com a coisa.

E pior. Algumas perguntas são proibidas. Não se pode questionar a lógica de deus, incompreensível aos homens. Deus, aliás, ri de nós. Deve mesmo rir, pois com tanto dinheiro, mulheres e assassinatos nós ainda continuamos nos curvando às palavras de seus emissários, daqueles que falam em seu nome, em nome de todo esse sangue derramado. Pois é isto, esta é a ideia de sociedade melhor na bíblia, a purificação pelo sangue e só esse banho de sangue pode nos salvar. Essa é o plano da suprema sabedoria divina: banho de sangue.

Supostamente esse sangue já foi derramado. Nós matamos deus, esse monstro sanguinolento, exceto que aí descobrimos que ele era apenas um humano que não falava de sangue, mas de amor ao próximo, às putas, aos vagabundos, aos pobres, aos estrangeiros, ao animais, basicamente um hippie que, em vez de fazer brincos de miçanga e fumar maconha, fazia truques de mágica e arrumava vinhos bons pras pessoas ficarem loucas nas festas. Aí, em vez de seguirmos o seu conselho de amor e repúdio ao trabalho, à família e à propriedade, nós voltamos os olhos para os “homens de deus” que vieram com roupas de reis nos falar de Jesus. Hoje, os que se dizem cristãos não vivem de forma nem remotamente parecida com a que cristo viveu e pregou. Não aderem aos seus valores de amor ao próximo; trabalham e reúnem propriedade. Casam-se e dão-se em casamento, embora Cristo jamais tenha casado. Têm filhos, embora jesus jamais tenha tido filhos, nem ordenado a procriação. Disse, aliás, que deveríamos repudiar nossas famílias, que todos deveríamos nos ver como irmãos e irmãs, independente de quem fossem nossos pais na terra.

Mas em toda parte que se procure não há “cristãos” vivendo assim. Novamente, podemos pensar que é culpa de satanás. Mas não é no mínimo curioso que Satanás sempre apareça para explicar tudo aquilo que não é como deveria ser? Será que ele tem tanta culpa assim? Supostamente nada acontece no mundo sem que seja da vontade de deus. Sendo assim, deve ser da vontade de deus que os cristãos não vivam como cristo. Mas por que deus não quereria que vivêssemos como ele próprio viveu? Para que não nos tornemos deuses? Seríamos uma ameaça à glória de deus? O que há de tão glorioso nesse deus que só pensa em sangue e em sua própria glória? Que nos faz viver uma vida inteira de dor e sofrimento para sua glória? Que nos faz viver em um mundo iníquo para sua glória?

Qual a glória de tudo isso? A que deus recebe eu não sei, mas os emissários de deus costumam ganhar milhões, ter milhares de mulheres, matar impunemente e ter altos postos no governo. Nós podemos continuar ouvindo a sua voz e acreditando no glorioso projeto divino para nossas vidas ou podemos encarar de frente o fato de que vivemos vidas miseráveis e que cabe a nós a responsabilidade por mudá-la. Não à vontade de deus.

Muitas dúvidas vão surgir. Quando se deixa de encarar a própria vida e o mundo como algo submetido ao arbítrio de uma vontade incompreensível e punitivista, você passa a perceber o quanto da lógica do mundo e da vida é criada por nós mesmos, seres humanos. O que os homens de deus fazem é preencher essa nossa necessidade de criar sentido ao longo de nossa vida, com o sentido que eles já nos passam pronto. Mas não são apenas os homens de deus que fazem isso. Fazem isso todos aqueles que trazem uma verdade para a sua vida sem lhe conhecer, sem conversar com você, sem ouvir a sua voz. Todo aquele que pretende te impor um sentido sem te escutar. E são a todos estes que não devemos escutar para que possamos escutar um ao outro, para que possamos amar e aceitar o outro sem pretender conquistá-lo. Para viver então como comunidade de amor, como Cristo pregava.

Mas algo que a igreja ensina muito bem é a obediência, o temor à autoridade, o mutismo serviçal. Nos ensina a ser ovelhas pastoreadas por homens de deus. Homens de deus como o Russomano que pegou na teta da mulher em frente às câmeras. Homens de deus como o Bolsonaro que tem nojo de negros. Homens de deus como Bush que iniciou duas guerras de busca por petróleo.

Qual o papel da universidade pública? Qual o papel da polícia armada? Precisamos desconstruir alguns mitos.

Mito 1: Universidade é lugar de estudar.

Universidade não é, nem deve jamais ser, uma continuação da escola. Aliás, sequer a escola deveria ser escola. A ideia de um ensino superior universitário não é a de PASSAR conhecimento aos alunos. Os alunos NÃO estão lá para serem ENSINADOS, para serem programados com o software que os torna máquinas eficientes para tarefas de alta complexidade. A universidade não é um curso técnico profissionalizante destinado a suprir demandas de mercado por profissionais de alto nível.

E tudo isso por um motivo muito simples: a universidade não se destina a REPRODUZIR saberes já consolidados, mas a PENSAR DE FORMA CRÍTICA os problemas sociais e apresentar-lhes novas soluções. Uma universidade que se limita a programar alunos e reproduzir conhecimento é uma universidade conformada com o estado das coisas e destinada a mantê-lo.

Por essa razão muito singela, quem protesta para que os alunos se limitem a estudar, protesta para que eles sejam instrumentos de reprodução do que já existe. Protesta para que eles adquiram conhecimentos técnicos que possibilitarão tão-somente que eles dominem um capital intelectual que os permita, no futuro, extrair os maiores salários em um mercado de trabalho desigual. Protesta para que eles interessem-se somente por si mesmos, protesta para que eles fortaleçam apenas a si mesmos, protesta para que tudo continue como está.

A tese é ainda mais explícita quando o ensino universitário é financiado por esforços públicos, extraídos da população por meio de uma ficção denominada impostos, para que um percentual irrisório dos jovens possa frequentar a universidade sem custos. Se é a sociedade quem sustenta o espaço público e recursos da universidade, o imperativo lógico é de que as atividades desenvolvidas naquele espaço tenham como objetivo primordial a solução dos problemas dessa mesma sociedade que a financia, não os daqueles que são financiados para frequentá-la. Estes são, no máximo, servidores do interesse público que podem ser, a qualquer tempo, cobrados pelo uso que fazem do financiamento que lhes foi concedido. Do contrário, a universidade pública seria, como infelizmente o é, apenas um espaço de privilégios e privilegiados.

Assim, quando um grupo de alunos sai em protesto contra a ingerência de uma reitoria que busca a privatização do ensino público, a sociedade deve ter muito claro que aqueles que protestam para que os alunos fiquem quietos e limitem-se a estudar, protestam, na verdade, para que esses alunos usem o seu financiamento para perseguir interesses pessoais e para que mantenham tudo como está. Protestam para que eles continuem a ter privilégios e não ousem tornarem-se serviçais do interesse público. Alguns fazem-no sem perceber. Outros fazem de má-fé. Cabe a cada um discernir entre um caso e outro.

Mito 2: A polícia serve para nos proteger.

Quem manda na polícia não é a população, quem manda na polícia é o Estado e o Estado, tal como deus, é um mito. Alguém já viu o Estado por aí? Eu não. O Estado é uma ficção criada por homens para racionalizar o exercício de um poder. Mas esse Estado nada mais é do que um discurso que nos diz que certas pessoas são governantes e certas pessoas são governados. Que certas pessoas mandam e certas pessoas obedecem. Que certas pessoas podem usar da violência e isto é “justiça” e que outras não podem e isso é “crime”.

Todo ser humano nasce pelado em meio a sangue, fezes e urina, em um mundo repleto de outros homens que lá já estavam antes de que este novo chegasse. Tudo o que ambos possuem de inalienável são seus próprios corpos, que, ao longo de suas vidas, ninguém lhes pode tirar, nem eles mesmos. Este corpo é frágil e tem diversas necessidades para desenvolver-se até chegar ao seu destino final, que é a desagregação ou morte. Acontece que os humanos tem uma habilidade muito específica que é a linguagem e por meio desta conseguem fazer uso concertado de seus corpos na perseguição de seus interesses.

Mas que ninguém se iluda: esse acordo de atuação conjunta nunca se dá de uma forma que respeite os melhores interesses de cada um. Aquele humano que acaba de nascer em meio de fezes precisa que alguém ajude-o a conseguir o que precisa, pois sozinho não é, nem nunca será ao longo de toda a sua existência, capaz de fazê-lo. Essa pessoa que o acolhe pode ser um mendigo, alguém que pode contar com a ação conjunta de quase ninguém. Não pode contar com favores de quase ninguém. Ou pode ser um governador, alguém que pode, com uma palavra, fazer com que milhões de pessoas atuem conjuntamente. Em outras palavras, ele nasce em um mundo que possui uma história, uma história que, aliás, não é nada bonita. Uma história de massacres, pilhagens, guerras, fomes, estupros, torturas, genocídios e escravidão.

No ponto em que estamos desta história, muitos humanos acreditam que devem obediência a outros, supostamente porque estes outros são “autoridades”: pessoas que são chamadas de “governadores”, “juízes”, “policiais”, “reitores” e etc. Mas o único traço que distingue estas pessoas das demais é que elas, por acasos históricos, vieram a adquirir a atenção de muitas pessoas que atuam de maneira conforme.

No caso daquela a que chamam de governador, ela pode simplesmente decidir quem vai ser o reitor e pode também dizer o que devem fazer os policiais. Os policiais, portanto, não servem para NOS proteger, eles servem para atuar conforme deseja o governador. Se o governador desejar que eles ataquem, eles atacam. Se desejar que fiquem parados, eles ficam parados.

No recente caso da USP, o reitor e o governador, bem como seus aliados, não desejavam que a universidade trabalhasse para solucionar problemas da sociedade, mas que se limitasse a reforçar o estado das coisas e, por isso, ficaram incomodados com aqueles alunos “insubordinados” – livres-pensadores – que discordavam e questionavam seu papel ali no campus. Por conta disto, ambos, com a anuência de outros tantos, decidiram chamar os policiais para fazerem valer seus interesses na universidade. Decidiram colocar policiais militares para perseguir pessoas  – alunos e não-alunos – de comportamentos inadequados aos olhos dos que governam.

Mas a questão da polícia não se limita à situação atual do campus. A polícia é a ficção que permite a imposição violenta de interesses contra aqueles que tentam buscar interesses divergentes daqueles que podem influir na estrutura de poder, na função da linguagem, em nossa sociedade. A polícia serve para impor vontades. A polícia serve para limitar o diálogo. A polícia serve para reprimir aqueles que não se conformam. O crime não existe, é apenas o rótulo que quem controla a polícia dá àquelas condutas que de alguma forma se contrapõem à ordem inigualitária já estabelecida. A polícia é uma forma de dizer que alguns interesses não podem ser discutidos, uma maneira de desautorizar pela força os interesses de alguns.

No campus a polícia tem o agravante de perseguir pessoas que se coloquem de forma concertada contra a ordem estabelecida. Mas o problema da polícia é maior. O problema da polícia é a violência que a ela é inerente, em qualquer lugar que atue, tanto mais em um estado escravagista e ditatorial como o nosso. Temos tentado, nos últimos vinte anos, construir uma democracia por aqui. Mas democracia não é algo que se constrói com uma canetada de legislador, não é algo que se limita a uma forma de decisão por maioria (como o demonstra o estado nazista que nunca deixou de ter uma constituição formalmente democrática). Democracia é algo que passa pela desconstrução de identidades autoritárias e submissas. E isto não é fácil.

Enquanto imperar a lógica da violência como resposta aos conflitos de interesse na sociedade, não pode haver democracia. Enquanto as pessoas acharem que violência é uma forma legítima de resolver uma situação de impasse, não pode haver democracia. Democracia só pode haver quando cada pessoa tiver ciência de que não deve obediência a ninguém, nem a si mesmo. Porque nós aprendemos, durante séculos, a exigir sangue e a aplaudir a exploração e a tortura. Nós não temos uma individualidade inata, mas formada em um meio social que aplaude violência e devemos, acima de tudo, desconfiar de nós mesmos. Somente quando as pessoas estiverem dispostas a ouvir, a pensar, a se questionar, a questionar o que ouvem e a aceitar que o outro pode ter interesses que não são iguais aos nossos – e que nem por isso seus interesses são menos legítimos -, poderemos começar a pensar em soluções diferentes para este velho problema.

E isso dentro e fora da universidade.

Uma premissa não elaborada na obra de Foucault nos permite pensar nos limites da diferença tolerável. Foucault cuida em sua obra da arbitrariedade e historicidade da valoração social de diferenças que, em si, são ontologicamente neutras. A distinção entre os sexos por exemplo. Tudo o que informa a diferença é que há uma dessemelhança entre os corpos das pessoas que portam como traço distintivo central uma genitália específica. A mera constatação da diferença, contudo, não implica a diferente valoração social que é dada ao tratamento dos sexos. Tal valoração social é casual e objeto de uma constante disputa de acréscimo no meio social. Conseguimos hoje vislumbrar, no próprio exemplo do sexo, que pode haver mudanças na valoração social dos sexos, dado que nas últimas décadas as percepção social das mulheres progrediu muito, ainda que haja muito a caminhar pela frente. O trabalho ético fundamental, neste sentido, é fazer com que cada diferença tenda à indistinção de modo que a diferença ontológica volte ao patamar de indistinção valorativa – como a diferença entre pessoas de cabelo castanho e castanho escuro o é. As ações afirmativas, neste sentido, seriam apenas um primeiro passo na extensão de direitos a pessoas que são historicamente vítimas de perseguição social. O ponto de chegada seria tornar suas diferenças socialmente irrelevantes ao ponto de não as percebermos. Não se falaria mais em gays, lésbicas, travestis, negros, judeus, ciganos, mas apenas em humanos em igual dignidade, sem qualquer distinção social por conta de seus caracteres distintivos.

Existe porém uma diferença ontológica que seja tão grande que impossibilite uma neutralidade valorativa? São os campos do ontológico e do axiológico assim tão apartados? Ou talvez exista um campo em que a diferença ontológica implique necessariamente a distinção valorativa?

X-Men é uma brilhante abordagem narrativa deste tema. Passada a Segunda Guerra Mudial, com todos os seus medos, descobriu-se uma chance de retorno da tão marchante inflação valorativa da distinção entre as raças ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. Chegou-se a afirmar categoricamente que a diferença racial era intransponível. Não foi, contudo, o que a história mostrou. Foi possível de alguma forma voltar ao convívio e em grande escala acalmar os ânimos. O que aconteceria, contudo, se ao invés de uma simples distinção de raça, surgisse uma distinção tão grande entre humanos que caracterizaria uma nova espécie? E se o traço distintivo desta espécie fosse justamente a maximização coletiva de todas as potencialidades humanas? Teria como haver integração social entre diferentes espécies sem que houvesse dominação completa – como nós fazemos com os cachorros? E pior, sendo esta espécie fruto da nossa própria espécie, nós teríamos alguma chance plausível de pensar que poderíamos impedi-los? Nós não teríamos como impedi-los de nascer, já que nascem de nós. Quando têm seus poderes, por outro lado, nós não podemos controlá-los. Qual a nossa chance em uma disputa como essa? A nossa única saída seria tentar sobreviver aceitando a sua dominação. Por que assim que o último de nós morresse, sobraria apenas a espécie deles. Para salvar a nossa espécie, nós seríamos forçados à escravidão.

O que nos faz pensar nos animais e na relação que temos com eles. Nós não os reconhecemos como sujeitos de direito, mas apenas como coisas, simples objetos, semoventes, nada distintos de cadeiras. Coisas. Exatamente o que eram os escravos. Não tinham direito de palavra ou desejo porque eram coisas, destinadas a satisfazer o desejo de seus mestres. Como os cães que nós tratamos como mercadorias. Vendemos, compramos e desprezamos absolutamente o direito deles de viverem como querem, por onde querem, com quem quiserem, o simples ir e vir. Não. Coisas, sem direito algum. Tal como nós provavelmente seríamos na hipótese trabalhada por X-Men.

Claro que X-Men, sendo um quadrinho feito para vender, nunca chegou, nem chegará a contar o inevitável nesta história. A jogatina política entre Eric e Charles tem que continuar para sempre nos quadrinhos, senão o quadrinho acaba e o final certamente não é feliz para nós.

Por outro lado, é feita alguma abordagem do que aconteceria antes da dominação completa.

Quando estas pessoas descobrissem que não estão sozinhas, logo começariam a procurar umas pelas outras para garantir seu autorespeito. Quereriam se sentir parte de alguma coisa e não apenas “freaks” que se escondem em casa e têm vergonha do que são. Havendo essa agremiação espontânea, logo surgiriam líderes destas comunidades. Estes líderes, provavelmente teriam visões diferentes de acordo com sua maior ou menor propensão a se sentir parte daquilo que é o humano, sentir-se membros dignos e respeitados de uma comunidade humana. Haveriam certamente aqueles que se sentiram sempre despojados de toda esta dignidade de ser humano, sofrendo todos as mazelas sociais que são características da nossa sociedade. Os primeiros tentariam uma política de paz e colaboração. A distinção genética que distingue estas duas espécies seria tida como irrelevante, as pessoas aprenderiam a aceitar e se orgulhar destas pessoas como a de qualquer outro membro da comunidade. Os últimos diriam que estão cansados de ser perseguidos, caçados e torturados pelos outros e que agora que tem a chance de tomar o problema nas mãos, não vão ficar esperando que as coisas aconteçam. Vão entrar em ação e fazer valer seus direitos. Agora, sem titubear.

Começa então uma revolução, porque os imediatistas não vão conter seus poderes, muitos dos quais extremamente úteis em combate e política (como o magnetismo e a telepatia) e declararão guerra à humanidade. Dir-se-ão espécie mais evoluída (Übermenschen) e começarão a guerra. Para contê-los, os mutantes teriam a única opção de entrar em guerra também, só que aliados aos humanos. Usariam então seus poderes para a guerra e estariam matando seus próprios irmãos de espécie para se manterem valorativamente indiferentes em meio aos humanos. Os humanos, contudo, em uma situação como essa de guerra, imediatamente criariam uma fobia absoluta de mutantes, um medo de serem atacados por quaisquer deles. Isto reforçaria a perseguição social dos mutantes nascidos na comunidade humana, que seriam cada vez mais marginalizados e cada vez mais suscetíveis ao discurso dos imediatistas que estão o tempo todo a dizer: “você não precisa sofrer, se vier conosco viverá um vida de rei e serão eles os seus servos”.

A questão que nunca será elaborada é então: será que uma diferença deste porte teria como ser reduzida à indiferença valorativa? Dados os fatores acima, é possível acreditar neste caso que Xavier possa convencer os humanos de que os mutantes, embora sejam definitivamente uma espécie diferente, não vão ser uma presença ruim dentro da sociedade humana e que ambas as espécies podem conviver sem perceber suas diferenças? Tal como o louro e o castanho?

Não sei quanto a vocês, mas eu acho pouco crível. Os humanos saberiam que as pessoas desta espécie teriam vantagens competitivas imensas em uma sociedade capitalista como a nossa. Quem dentre os humanos poderia competir com cérebros como o de Hank McCoy? Quem poderia ser vencedor em uma disputa política com Xavier? Quem poderia superar magneto no conhecimento dos metais? Os humanos tenderiam a ocupar cargos cada vez mais baixos e mal remunerados, até o momento em que recebessem apenas os piores salários e chegasse então o dia em que seus mestres descobrissem que não precisam lhes pagar salários, podem simplesmente comercializá-los, como escravos. Os humanos perceberiam isso de imediato e não haveria como convencer autoridades humanas a aceitar essa nova espécie. Seus loci de poder estariam completamente ameaçados. Por conta disto, toda a aliança com as autoridades humanas teria sempre o receio de que ao final da guerra contra seus próprios irmãos, com suas forças desgastadas, os mutantes remanescentes seriam exterminados pelos humanos. Tudo o que se poderia apostar, assim, é na benevolência dos humanos. A história, contudo, não tem muito a dizer em favor de sua benevolência.

Nós humanos somos conhecidos pelas mais sangrentas e cruéis perseguições de que se tem testemunho no reino animal. Não se percebe em outras espécies tamanha agressividade interna à espécie. Há brigas, há duelos, há lideres em grupos de diversos vertebrados, mas não há guerra sistemática entre grupos deles. Disputam aqui e ali por um espaço e acesso ao alimento. Fora isso, vivem em praticamente total ignorância dos demais. Nos, contudo, tendemos a nos caçar, nos exterminar, nos matar, nos devorar e nos torturar quase como se fôssemos parasitas de nós mesmos. É possível que um mutante com a habilidade linguística e capacidade política de Xavier ignore a realidade história de tudo isto e se lance na expectativa ingênua de que “dessa vez vai ser diferente”?

Eu duvido. Xavier, idealista e bem formado na cultura dos direitos, tentaria a princípio evitar nomear a distinção. Tentaria mantê-la abafada, objeto de uma curiosidade simplesmente acadêmica, mas que jamais deveria transitar para o campo do valor social. Quando surgissem os primeiros ataques ou fenômenos chamativos, contudo, a mídia daria notoriedade ao tema e isso rapidamente se transformaria em palco de xenofobia e política. Subiriam discursos favoráveis e desfavoráveis a esta nova distinção e Xavier seria forçado a sair de sua posição de tentativa de ignorar a questão valorativa posta pela diferença ontológica. Sua única opção política sensata é defender sua própria espécie, já que é um deles e não quer ele mesmo maltratar sua espécie. Logo, sairia em defesa dos direitos dos “x-men” de não serem objeto de discriminação na sociedade. Repudiaria nomenclaturas descriminatórias como “mutantes”. Buscaria por leis que garantissem neutralidade quando à diferença de espécie. Logo, porém, esta diferença começaria a ser percebida e mal tratada pela população que é extremamente suscetível ao medo daquilo que é diferente. As pessoas passariam a se desviar, falar mal e descaracterizar a humanidade dos mutantes e a dizer que eles não podem conviver. O discurso pacifista de Xavier seria abafado por intensas reportagens de atos de violência dos mutantes, para incitar ainda mais o ódio da população.

Os mutantes seriam então tratados como marginais e suas vozes seriam sempre abafadas pelo discurso oficial. Em alguns lugares se ouviria falar de convivência pacífica com mutantes, mas grande parte da população seria extremamente hostil. Com estes níveis de hostilidade, casualmente começariam a aparecer nos noticiários casos de disputa violenta entre grupos de extrema direita humana e mutantes pelas cidades e, dada a imensidão dos poderes e a precocidade com que são desenvolvidos – ainda na adolescência -, logo as ruas estariam tomadas pelo caos.

Neste momento, Xavier, já sem voz nenhuma perante os humanos seria obrigado a reunir os mutantes para se protegerem. Precisariam de um lugar em que ficassem isolados da presença dos humanos, para que não despertassem o ódio. Sua escolha então seria: a. dominar a mente dos líderes humanos e controlar os meios de comunicação em massa de modo a direcionar a opinião pública favoravelmente aos mutantes e tentar a todo custo reter os ânimos de guerra na população – tudo isso tendo ainda que confrontar o ataque certo dos grupos separatistas mutantes de Magneto e muitos outros que certamente surgiriam para reivindicar seus direitos à força; ou b. não controlá-los em respeito às suas dignidades individuais e de espécie – já que esse controle mental só se distingue da escravidão proposta por magneto no fato de que não deriva de força física, mas de habilidade política – e acreditar piamente que os seres humanos serão capazes de aceitá-los como parte de sua população.

Se a escolha é ética, como teima-se a dizer que é, Xavier não pode escolher a primeira opção, já que a escravidão humana é seu pressuposto. É como torturar para defender direitos humanos, simplesmente perde o sentido. Nos resta então a segunda opção. Não me parece, todavia, que estejamos diante de grandes perspectivas. Os humanos têm mostrado incessantemente sua capacidade para a perseguição. As distinções de orientação sexual são o grande exemplo do que se faz na comunidade humana com pessoas com diferenças subjetivas íntimas. A questão das síndromes – que são mutações genéticas – demontra o que fazemos com pessoas com diferenças visíveis e sem talentos especiais. Quem dirá do que se faz com pessoas que possuem uma genética que os torna visualmente distintos e marcadamente mais talentosos?

Xavier faz o papel de Foucault e acredita que vale a pena tentar resistir à tentação das cargas valorativas e buscar uma indiferença axiológica. Magneto, por outro lado, acha que Xavier não conhece o mundo: ele não esteve entre as vítimas do nazismo e não teve a vida tragicamente marcada por uma perseguição. E isso Magneto não pode tolerar, nem hipoteticamente. Não pode imaginar que será objeto de perseguições novamente e sua raiva o leva a perseguir para garantir que não será perseguido. Magneto é também um líder nato e não precisa de Xavier para guiá-lo na política. Consegue reunir seus próprios colaboradores e reúne um grupo particular de mutantes. Xavier então é forçado a sair de seus devaneios e unir-se ao combate de guerra para defender suas visões pacifistas. Em meio à guerra, porém, Xavier há de perceber que seus sonhos de indiferença parecem cada vez mais distantes.

Quando foi o caso da guerra entre raças, nós conseguimos reverter a situação de calamidade, mas o que seria em uma guerra entre espécies? Qual a chance que Xavier tem de reverter o resultado da guerra se não pode matar, nem controlar seus inimigos mutantes, já que seu objetivo é defendê-los, nem pode influenciar os humanos, porque seu objetivo é preservar-lhes a autonomia?

A meu ver, como disse, pouca. A menos que algo na história nos mostre que temos aprendido a tolerar nossas diferenças e que podemos conviver pacificamente enquanto espécie integrada às demais espécies, se surgir uma distinção ontológica muito grande entre agrupamentos de humanos, a resultante necessária vai ser uma valoração social extremamente inigualitária desta distinção, o que só poderia levar à guerra entre os grupos.

Brilhante ver tudo isso abordado em X-Men, considerando que esta é uma série destinada ao público infanto-juvenil lançada ainda nas brasas da segunda guerra. O tema é provocativo e certamente foi mal abordado ao longo da série dos quadrinhos. Ou talvez a cegueira ideológica me tenha atingido em cheio ao longo dos anos de adolescência em que eu os lia, pois me lembro apenas de uma caracterização muito dogmática dos Xmen como heróis e dos aliados de Magneto como vilões, sem maiores discussões das implicações políticas nos discursos de cada um dos líderes. Qualquer que seja o caso, o tema foi brilhantemente abordado no novo filme dos Xmen e dessa vez não houve venda ideológica que pudesse me impedir de enxergar o que estava ali posto. Só é uma pena saber que o filme está fadado a deixar sem abordagem as respostas para estas perguntas. Tudo que há depois em X-Men é apenas a manutenção eterna de um estágio inicial do conflito armado entre humanos e mutantes, estado este que, em um cenário real, seria rapidamente ultrapassado para a guerra e caos no mundo, algo que também jamais chega a aparecer nos quadrinhos e provavelmente nem irá.

De um jeito ou de outro foi curioso perceber como há uma gradação entre as histórias dos X-Men e as demais histórias de heróis contemporâneas. Histórias no modelo clássico do super-homem impõe pouca reflexão, porque se trata apenas de um ser especial sem relações a nível de população com os humanos. As pessoas podem temê-lo ou reverenciá-lo, mas a questão nunca se torna politicamente relevante, já que é apenas um. Quando, porém, o atributo especial passa a ser compartilhado por várias pessoas, necessariamente surge a questão da segregação e vem pesada a questão da possibilidade de mútuo respeito e tolerância. Neste sentido, a questão posta em X-Men é ainda mais relevante do que aquela posta em Watchmen, que é tido como um quadrinho destinado ao público adulto, com uma abordagem muito explícita da questão: “quem vigia os vigilantes?”. Questão de marcada implicação política, porém de uma complexidade e relevância histórica menor quando comparada à questão da discriminação social e segregação dentro das sociedades humanas.

Um grande PS: Só agora entendi também a natureza dos poderes de Xavier. Os telepatas são seres com uma habilidade comunicativa tão grande que podem ser enquadrados como qualitativamente diferentes dos demais humanos. Seu domínio da comunicação é tão amplo que eles conseguem se comunicar com qualquer pessoa, fazerem-se entendidos e manipular os sentimentos dos demais. Embora Xavier seja retratado como um intelectual, como um professor, sua habilidade ímpar é a política e é o emocional. Diferente de Hank que possui um cérebro de cientista, de hacker, apto a desvendar quaisquer mistérios do mundo físico, porém socialmente imaturo e subjetivamente pouco controlado, sem percepção clara de si e de seus iguais, tímido e sem noção de política; Xavier é alguém sem capacidades intelectuais prodigiosas, mas com uma inteligência emocional sem comparação. Por isto Hank é sempre uma ferramenta, que Xavier e outros mutantes tentam controlar. Xavier, por sua vez, nunca pode ser apenas uma peça. Ele sempre será um elemento vital na conquista da política, já que nenhuma revolução pode acontecer sem ele. Em casos extremos ele manipula diversas pessoas simultaneamente para que o resultado de uma ação política seja aquele que ele espera. Por conta disto, o capacete do Magneto vira a mais importante arma na revolução dos mutantes. Se o maior telepata do mundo está contra ele, sua única chance de vitória é imunizar-se contra o poder de manipulação do Xavier e contar que a ética impedirá Xavier de manipular o jogo totalmente.

Ciência de boteco: “Se aceitarmos que o amor é a devoção absoluta ao ser amado, o telefone celular é seu teste de verdade.”

Até a invenção do celular, declarar o amor infinito era uma coisa relativamente fácil e sem grandes implicações. Podia-se dizer que se amava uma pessoa mais do que a si mesmo e que a pessoa amada poderia sempre contar com os favores do declarado amante, sem, com isto, assumir um fardo perene de disponibilidade e atenção.

Com a invenção do celular, contudo, a declaração de amor foi posta à prova. Se é verdade que o amante importa-se mais com o ser amado do que consigo próprio e se existe uma tecnologia que permite, a qualquer momento, um contato instantâneo, sua atenção ao celular na ausência da pessoa amada deve ser incessante, já que o amante nunca tem como saber quando a pessoa amada necessitará de seus favores.

A prontidão em atender às chamadas da pessoa amada ao celular pode então servir de medida do amor. Em um dos extremos da escala está a pessoa que nunca atende o celular, demora pra responder SMS’s e muitas vezes não retorna ligações perdidas. No outro, está a pessoa que anda com o celular no toque mais alto e com função de vibrar, que dorme com o celular ligado, que nunca deixa a bateria acabar, que atende ao telefone no primeiro toque e responde SMS’s quase instantaneamente.

Mais interessante porém é o que estes extremos comunicam.

O primeiro, evidentemente, comunica uma desatenção, um descuido, uma inconstância do amor ao ser amado e uma preocupação maior com sua própria vida e afazeres do que com aquele que diz amar acima de tudo. A devoção neste caso, se existe, é a si mesmo, não ao outro.

O segundo, por outro lado, comunica uma preocupação absoluta com o ser amado, mas comunica também uma hiperestima de si. Quem se faz absolutamente disponível a outra pessoa inevitavelmente assume ter uma importância igualmente absoluta na vida deste. Uma disponibilidade absoluta só se mantém sobre o apoio de uma convicção de que a pessoa amada pode sofrer imensamente com a indisponibilidade temporária do amante. Em outras palavras, a devoção absoluta ao outro implica uma valorização absoluta de si.

O extremos, assim como todas as variantes entre eles, comunicam-se num único e mesmo amor de si.

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