Uma premissa não elaborada na obra de Foucault nos permite pensar nos limites da diferença tolerável. Foucault cuida em sua obra da arbitrariedade e historicidade da valoração social de diferenças que, em si, são ontologicamente neutras. A distinção entre os sexos por exemplo. Tudo o que informa a diferença é que há uma dessemelhança entre os corpos das pessoas que portam como traço distintivo central uma genitália específica. A mera constatação da diferença, contudo, não implica a diferente valoração social que é dada ao tratamento dos sexos. Tal valoração social é casual e objeto de uma constante disputa de acréscimo no meio social. Conseguimos hoje vislumbrar, no próprio exemplo do sexo, que pode haver mudanças na valoração social dos sexos, dado que nas últimas décadas as percepção social das mulheres progrediu muito, ainda que haja muito a caminhar pela frente. O trabalho ético fundamental, neste sentido, é fazer com que cada diferença tenda à indistinção de modo que a diferença ontológica volte ao patamar de indistinção valorativa – como a diferença entre pessoas de cabelo castanho e castanho escuro o é. As ações afirmativas, neste sentido, seriam apenas um primeiro passo na extensão de direitos a pessoas que são historicamente vítimas de perseguição social. O ponto de chegada seria tornar suas diferenças socialmente irrelevantes ao ponto de não as percebermos. Não se falaria mais em gays, lésbicas, travestis, negros, judeus, ciganos, mas apenas em humanos em igual dignidade, sem qualquer distinção social por conta de seus caracteres distintivos.
Existe porém uma diferença ontológica que seja tão grande que impossibilite uma neutralidade valorativa? São os campos do ontológico e do axiológico assim tão apartados? Ou talvez exista um campo em que a diferença ontológica implique necessariamente a distinção valorativa?
X-Men é uma brilhante abordagem narrativa deste tema. Passada a Segunda Guerra Mudial, com todos os seus medos, descobriu-se uma chance de retorno da tão marchante inflação valorativa da distinção entre as raças ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. Chegou-se a afirmar categoricamente que a diferença racial era intransponível. Não foi, contudo, o que a história mostrou. Foi possível de alguma forma voltar ao convívio e em grande escala acalmar os ânimos. O que aconteceria, contudo, se ao invés de uma simples distinção de raça, surgisse uma distinção tão grande entre humanos que caracterizaria uma nova espécie? E se o traço distintivo desta espécie fosse justamente a maximização coletiva de todas as potencialidades humanas? Teria como haver integração social entre diferentes espécies sem que houvesse dominação completa – como nós fazemos com os cachorros? E pior, sendo esta espécie fruto da nossa própria espécie, nós teríamos alguma chance plausível de pensar que poderíamos impedi-los? Nós não teríamos como impedi-los de nascer, já que nascem de nós. Quando têm seus poderes, por outro lado, nós não podemos controlá-los. Qual a nossa chance em uma disputa como essa? A nossa única saída seria tentar sobreviver aceitando a sua dominação. Por que assim que o último de nós morresse, sobraria apenas a espécie deles. Para salvar a nossa espécie, nós seríamos forçados à escravidão.
O que nos faz pensar nos animais e na relação que temos com eles. Nós não os reconhecemos como sujeitos de direito, mas apenas como coisas, simples objetos, semoventes, nada distintos de cadeiras. Coisas. Exatamente o que eram os escravos. Não tinham direito de palavra ou desejo porque eram coisas, destinadas a satisfazer o desejo de seus mestres. Como os cães que nós tratamos como mercadorias. Vendemos, compramos e desprezamos absolutamente o direito deles de viverem como querem, por onde querem, com quem quiserem, o simples ir e vir. Não. Coisas, sem direito algum. Tal como nós provavelmente seríamos na hipótese trabalhada por X-Men.
Claro que X-Men, sendo um quadrinho feito para vender, nunca chegou, nem chegará a contar o inevitável nesta história. A jogatina política entre Eric e Charles tem que continuar para sempre nos quadrinhos, senão o quadrinho acaba e o final certamente não é feliz para nós.
Por outro lado, é feita alguma abordagem do que aconteceria antes da dominação completa.
Quando estas pessoas descobrissem que não estão sozinhas, logo começariam a procurar umas pelas outras para garantir seu autorespeito. Quereriam se sentir parte de alguma coisa e não apenas “freaks” que se escondem em casa e têm vergonha do que são. Havendo essa agremiação espontânea, logo surgiriam líderes destas comunidades. Estes líderes, provavelmente teriam visões diferentes de acordo com sua maior ou menor propensão a se sentir parte daquilo que é o humano, sentir-se membros dignos e respeitados de uma comunidade humana. Haveriam certamente aqueles que se sentiram sempre despojados de toda esta dignidade de ser humano, sofrendo todos as mazelas sociais que são características da nossa sociedade. Os primeiros tentariam uma política de paz e colaboração. A distinção genética que distingue estas duas espécies seria tida como irrelevante, as pessoas aprenderiam a aceitar e se orgulhar destas pessoas como a de qualquer outro membro da comunidade. Os últimos diriam que estão cansados de ser perseguidos, caçados e torturados pelos outros e que agora que tem a chance de tomar o problema nas mãos, não vão ficar esperando que as coisas aconteçam. Vão entrar em ação e fazer valer seus direitos. Agora, sem titubear.
Começa então uma revolução, porque os imediatistas não vão conter seus poderes, muitos dos quais extremamente úteis em combate e política (como o magnetismo e a telepatia) e declararão guerra à humanidade. Dir-se-ão espécie mais evoluída (Übermenschen) e começarão a guerra. Para contê-los, os mutantes teriam a única opção de entrar em guerra também, só que aliados aos humanos. Usariam então seus poderes para a guerra e estariam matando seus próprios irmãos de espécie para se manterem valorativamente indiferentes em meio aos humanos. Os humanos, contudo, em uma situação como essa de guerra, imediatamente criariam uma fobia absoluta de mutantes, um medo de serem atacados por quaisquer deles. Isto reforçaria a perseguição social dos mutantes nascidos na comunidade humana, que seriam cada vez mais marginalizados e cada vez mais suscetíveis ao discurso dos imediatistas que estão o tempo todo a dizer: “você não precisa sofrer, se vier conosco viverá um vida de rei e serão eles os seus servos”.
A questão que nunca será elaborada é então: será que uma diferença deste porte teria como ser reduzida à indiferença valorativa? Dados os fatores acima, é possível acreditar neste caso que Xavier possa convencer os humanos de que os mutantes, embora sejam definitivamente uma espécie diferente, não vão ser uma presença ruim dentro da sociedade humana e que ambas as espécies podem conviver sem perceber suas diferenças? Tal como o louro e o castanho?
Não sei quanto a vocês, mas eu acho pouco crível. Os humanos saberiam que as pessoas desta espécie teriam vantagens competitivas imensas em uma sociedade capitalista como a nossa. Quem dentre os humanos poderia competir com cérebros como o de Hank McCoy? Quem poderia ser vencedor em uma disputa política com Xavier? Quem poderia superar magneto no conhecimento dos metais? Os humanos tenderiam a ocupar cargos cada vez mais baixos e mal remunerados, até o momento em que recebessem apenas os piores salários e chegasse então o dia em que seus mestres descobrissem que não precisam lhes pagar salários, podem simplesmente comercializá-los, como escravos. Os humanos perceberiam isso de imediato e não haveria como convencer autoridades humanas a aceitar essa nova espécie. Seus loci de poder estariam completamente ameaçados. Por conta disto, toda a aliança com as autoridades humanas teria sempre o receio de que ao final da guerra contra seus próprios irmãos, com suas forças desgastadas, os mutantes remanescentes seriam exterminados pelos humanos. Tudo o que se poderia apostar, assim, é na benevolência dos humanos. A história, contudo, não tem muito a dizer em favor de sua benevolência.
Nós humanos somos conhecidos pelas mais sangrentas e cruéis perseguições de que se tem testemunho no reino animal. Não se percebe em outras espécies tamanha agressividade interna à espécie. Há brigas, há duelos, há lideres em grupos de diversos vertebrados, mas não há guerra sistemática entre grupos deles. Disputam aqui e ali por um espaço e acesso ao alimento. Fora isso, vivem em praticamente total ignorância dos demais. Nos, contudo, tendemos a nos caçar, nos exterminar, nos matar, nos devorar e nos torturar quase como se fôssemos parasitas de nós mesmos. É possível que um mutante com a habilidade linguística e capacidade política de Xavier ignore a realidade história de tudo isto e se lance na expectativa ingênua de que “dessa vez vai ser diferente”?
Eu duvido. Xavier, idealista e bem formado na cultura dos direitos, tentaria a princípio evitar nomear a distinção. Tentaria mantê-la abafada, objeto de uma curiosidade simplesmente acadêmica, mas que jamais deveria transitar para o campo do valor social. Quando surgissem os primeiros ataques ou fenômenos chamativos, contudo, a mídia daria notoriedade ao tema e isso rapidamente se transformaria em palco de xenofobia e política. Subiriam discursos favoráveis e desfavoráveis a esta nova distinção e Xavier seria forçado a sair de sua posição de tentativa de ignorar a questão valorativa posta pela diferença ontológica. Sua única opção política sensata é defender sua própria espécie, já que é um deles e não quer ele mesmo maltratar sua espécie. Logo, sairia em defesa dos direitos dos “x-men” de não serem objeto de discriminação na sociedade. Repudiaria nomenclaturas descriminatórias como “mutantes”. Buscaria por leis que garantissem neutralidade quando à diferença de espécie. Logo, porém, esta diferença começaria a ser percebida e mal tratada pela população que é extremamente suscetível ao medo daquilo que é diferente. As pessoas passariam a se desviar, falar mal e descaracterizar a humanidade dos mutantes e a dizer que eles não podem conviver. O discurso pacifista de Xavier seria abafado por intensas reportagens de atos de violência dos mutantes, para incitar ainda mais o ódio da população.
Os mutantes seriam então tratados como marginais e suas vozes seriam sempre abafadas pelo discurso oficial. Em alguns lugares se ouviria falar de convivência pacífica com mutantes, mas grande parte da população seria extremamente hostil. Com estes níveis de hostilidade, casualmente começariam a aparecer nos noticiários casos de disputa violenta entre grupos de extrema direita humana e mutantes pelas cidades e, dada a imensidão dos poderes e a precocidade com que são desenvolvidos – ainda na adolescência -, logo as ruas estariam tomadas pelo caos.
Neste momento, Xavier, já sem voz nenhuma perante os humanos seria obrigado a reunir os mutantes para se protegerem. Precisariam de um lugar em que ficassem isolados da presença dos humanos, para que não despertassem o ódio. Sua escolha então seria: a. dominar a mente dos líderes humanos e controlar os meios de comunicação em massa de modo a direcionar a opinião pública favoravelmente aos mutantes e tentar a todo custo reter os ânimos de guerra na população – tudo isso tendo ainda que confrontar o ataque certo dos grupos separatistas mutantes de Magneto e muitos outros que certamente surgiriam para reivindicar seus direitos à força; ou b. não controlá-los em respeito às suas dignidades individuais e de espécie – já que esse controle mental só se distingue da escravidão proposta por magneto no fato de que não deriva de força física, mas de habilidade política – e acreditar piamente que os seres humanos serão capazes de aceitá-los como parte de sua população.
Se a escolha é ética, como teima-se a dizer que é, Xavier não pode escolher a primeira opção, já que a escravidão humana é seu pressuposto. É como torturar para defender direitos humanos, simplesmente perde o sentido. Nos resta então a segunda opção. Não me parece, todavia, que estejamos diante de grandes perspectivas. Os humanos têm mostrado incessantemente sua capacidade para a perseguição. As distinções de orientação sexual são o grande exemplo do que se faz na comunidade humana com pessoas com diferenças subjetivas íntimas. A questão das síndromes – que são mutações genéticas – demontra o que fazemos com pessoas com diferenças visíveis e sem talentos especiais. Quem dirá do que se faz com pessoas que possuem uma genética que os torna visualmente distintos e marcadamente mais talentosos?
Xavier faz o papel de Foucault e acredita que vale a pena tentar resistir à tentação das cargas valorativas e buscar uma indiferença axiológica. Magneto, por outro lado, acha que Xavier não conhece o mundo: ele não esteve entre as vítimas do nazismo e não teve a vida tragicamente marcada por uma perseguição. E isso Magneto não pode tolerar, nem hipoteticamente. Não pode imaginar que será objeto de perseguições novamente e sua raiva o leva a perseguir para garantir que não será perseguido. Magneto é também um líder nato e não precisa de Xavier para guiá-lo na política. Consegue reunir seus próprios colaboradores e reúne um grupo particular de mutantes. Xavier então é forçado a sair de seus devaneios e unir-se ao combate de guerra para defender suas visões pacifistas. Em meio à guerra, porém, Xavier há de perceber que seus sonhos de indiferença parecem cada vez mais distantes.
Quando foi o caso da guerra entre raças, nós conseguimos reverter a situação de calamidade, mas o que seria em uma guerra entre espécies? Qual a chance que Xavier tem de reverter o resultado da guerra se não pode matar, nem controlar seus inimigos mutantes, já que seu objetivo é defendê-los, nem pode influenciar os humanos, porque seu objetivo é preservar-lhes a autonomia?
A meu ver, como disse, pouca. A menos que algo na história nos mostre que temos aprendido a tolerar nossas diferenças e que podemos conviver pacificamente enquanto espécie integrada às demais espécies, se surgir uma distinção ontológica muito grande entre agrupamentos de humanos, a resultante necessária vai ser uma valoração social extremamente inigualitária desta distinção, o que só poderia levar à guerra entre os grupos.
Brilhante ver tudo isso abordado em X-Men, considerando que esta é uma série destinada ao público infanto-juvenil lançada ainda nas brasas da segunda guerra. O tema é provocativo e certamente foi mal abordado ao longo da série dos quadrinhos. Ou talvez a cegueira ideológica me tenha atingido em cheio ao longo dos anos de adolescência em que eu os lia, pois me lembro apenas de uma caracterização muito dogmática dos Xmen como heróis e dos aliados de Magneto como vilões, sem maiores discussões das implicações políticas nos discursos de cada um dos líderes. Qualquer que seja o caso, o tema foi brilhantemente abordado no novo filme dos Xmen e dessa vez não houve venda ideológica que pudesse me impedir de enxergar o que estava ali posto. Só é uma pena saber que o filme está fadado a deixar sem abordagem as respostas para estas perguntas. Tudo que há depois em X-Men é apenas a manutenção eterna de um estágio inicial do conflito armado entre humanos e mutantes, estado este que, em um cenário real, seria rapidamente ultrapassado para a guerra e caos no mundo, algo que também jamais chega a aparecer nos quadrinhos e provavelmente nem irá.
De um jeito ou de outro foi curioso perceber como há uma gradação entre as histórias dos X-Men e as demais histórias de heróis contemporâneas. Histórias no modelo clássico do super-homem impõe pouca reflexão, porque se trata apenas de um ser especial sem relações a nível de população com os humanos. As pessoas podem temê-lo ou reverenciá-lo, mas a questão nunca se torna politicamente relevante, já que é apenas um. Quando, porém, o atributo especial passa a ser compartilhado por várias pessoas, necessariamente surge a questão da segregação e vem pesada a questão da possibilidade de mútuo respeito e tolerância. Neste sentido, a questão posta em X-Men é ainda mais relevante do que aquela posta em Watchmen, que é tido como um quadrinho destinado ao público adulto, com uma abordagem muito explícita da questão: “quem vigia os vigilantes?”. Questão de marcada implicação política, porém de uma complexidade e relevância histórica menor quando comparada à questão da discriminação social e segregação dentro das sociedades humanas.
Um grande PS: Só agora entendi também a natureza dos poderes de Xavier. Os telepatas são seres com uma habilidade comunicativa tão grande que podem ser enquadrados como qualitativamente diferentes dos demais humanos. Seu domínio da comunicação é tão amplo que eles conseguem se comunicar com qualquer pessoa, fazerem-se entendidos e manipular os sentimentos dos demais. Embora Xavier seja retratado como um intelectual, como um professor, sua habilidade ímpar é a política e é o emocional. Diferente de Hank que possui um cérebro de cientista, de hacker, apto a desvendar quaisquer mistérios do mundo físico, porém socialmente imaturo e subjetivamente pouco controlado, sem percepção clara de si e de seus iguais, tímido e sem noção de política; Xavier é alguém sem capacidades intelectuais prodigiosas, mas com uma inteligência emocional sem comparação. Por isto Hank é sempre uma ferramenta, que Xavier e outros mutantes tentam controlar. Xavier, por sua vez, nunca pode ser apenas uma peça. Ele sempre será um elemento vital na conquista da política, já que nenhuma revolução pode acontecer sem ele. Em casos extremos ele manipula diversas pessoas simultaneamente para que o resultado de uma ação política seja aquele que ele espera. Por conta disto, o capacete do Magneto vira a mais importante arma na revolução dos mutantes. Se o maior telepata do mundo está contra ele, sua única chance de vitória é imunizar-se contra o poder de manipulação do Xavier e contar que a ética impedirá Xavier de manipular o jogo totalmente.